Rute Xavier: "Com tanta incerteza, ainda há espaço para a estratégia?"

Para onde queremos ir? Até há pouco tempo, com ambientes mais estabilizados, tornava-se menos complexo responder. O objetivo ainda assim tem de ser definido, sempre com a flexibilidade necessária.

Raramente assistimos a momentos de tanta incerteza… admito até que quando em Estratégia há um par de anos falávamos num mundo VUCA (Volátil, Incerto [Uncertainty], Complexo e Ambíguo) não estávamos a pensar em três anos de pandemia, com confinamentos sucessivos, reorganização (ou desorganização) de cadeias de abastecimento, uma guerra na Europa, taxas de inflação e de juro a aumentar como os mais jovens não se lembram e, não querendo parecer pessimista, com muito poucos sinais de abrandamento.

Por isso, dei por mim há uns dias numa discussão sobre se valia a pena planear e definir estratégias quando os pressupostos mudam mais depressa do que a nossa capacidade (e imaginação) para os formular.

A questão é que estes tempos de elevada incerteza exigem novas formas de formular estratégias e de as executar – mais ágeis e mais flexíveis.

Vale a pena fazer previsões?

Sim, tanto quanto possível. Quanto mais previrmos o que será o cenário no futuro, mais próximo estaremos da realidade.

E não podemos esquecer que, apesar de incerteza significar risco e (eventualmente) possibilidade de perdas, o facto de nos prepararmos com previsões adequadas pode ajudar-nos a identificar oportunidades e possibilidade de expandir além dos limites de negócio atuais. Este exercício exige contudo uma nova mentalidade de gestão dos líderes e uma mudança de perspetiva. Já não é só “business as usual”.

Há que olhar menos para o que a empresa pode fazer com o que tem e pensá-la sobre o que pode fazer com o que ainda não tem; e trabalhar para ganhar os recursos e as competências que permitam lá chegar.

Mais do que nunca, a estratégia da empresa tem de ser flexível. Não podemos ter “Planeamentos Estratégicos” para 3, 5 ou 10 anos e considerar que se vão cumprir. O que sabemos nós (que previsões conseguimos fazer) do cenário dentro de 10 anos? Para 1 ou 2 anos podemos ter uma razoável perceção. Mas só isso. Por isso, e cada vez mais, a agilidade e flexibilidade das empresas (também) na sua definição estratégica é muito importante.

Nota: Artigo completo disponível no Observador.