José Azeredo Lopes: "A torneira dos gasodutos"
Têm recrudescido nos últimos dias as opiniões muito críticas pelo facto de alguns Países, e em particular a Alemanha, não recorrerem à arma de destruição massiva do gás. De facto, afirmam, são colossais as somas que “damos” à Federação Russa ao continuarmos a negociar com ela. Assim, não só permitimos que continue o seu esforço de guerra como, por outro lado, “damos” muito menos à Ucrânia para que esta enfrente o agressor.
Fechem a torneira do gás, e a guerra acaba num instante: é esta, em síntese, a tese. Penso, porém, que o “argumento” é muito frágil. Pode ajudar a mobilizar esforços e vontades em benefício da Ucrânia – e esta merece-o – mas não tem sustento que aguente uma análise menos primária.
Seria bom que se dissesse, logo a começar, que se fosse como se tem dito, a Rússia já tinha ganho a guerra há muito tempo. Com forças superiores e nós a pagar-lhe, que outro resultado poderia esperar-se? Depois, a Rússia não recebe nada de graça, aquelas somas milionárias são a contrapartida de mercado para que os Estados europeus que lhe compram gás possam, literalmente, funcionar ou manter em funcionamento setores importantes da sua economia e garantir expetativas de consumo legítimas dos seus cidadãos em relação a um bem essencial.
Não será fácil acusar a Comissão Europeia, e a Presidente da Comissão, de qualquer tolerância ou complacência com a invasão russa da Ucrânia. Ora, com bastante bom senso, as negociações que têm decorrido apontam para que, a prazo, cesse qualquer aquisição de gás ou petróleo à Federação Russa, quebrando-se assim e de vez uma dependência que, agora, todos consideram tóxica. O carvão já foi, vai-se agora o petróleo, seguir-se-á o gás.
Artido completo disponível na CNN.
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