Fernando Ilharco: “As folhas brancas”

Já tinha acontecido, na Rússia e noutras partes do mundo. Mas desta vez foi em Novosibirsk, a maior cidade da Sibéria, depois em Nijni Novgorod, no distrito do Volga, e em seguida pela Rússia e pelas redes sociais de todo o mundo. Homens e mulheres, sozinhos, exibindo uma folha em branco, eram parados e detidos pela polícia.

O potencial de significado de uma folha em branco nas mãos é gigantesco, evidentemente. Mais do que outra coisa, ela é um princípio, uma intenção, um lembrar do pensar, falar e escolher. Na comunidade humana, na civilização do texto e da imagem, dos livros e da cultura, hoje, uma folha em branco nas mãos é uma interpelação, um apelo a se oiça, a que se fale, a que se exista. No mundo do texto e dos ecrãs, uma folha em branco nas mãos é um arquétipo de liberdade. Uma predisposição interpretativa, uma forma sem conteúdo apta a ser preenchida, como diria Jung. Ou seja, algo prestes a ganhar substância na História. “Porquê escrever? Toda a gente sabe qual é o problema”, comentou um dos detidos.

Nota: Pode ler o artigo na íntegra na edição impressa do Jornal de Negócios de 18 de março de 2022.