Alfredo Teixeira: "A Quaresma do mundo"
A tradição cristã conhece bem a gramática dos “tempos fortes”. Entre eles, a Quaresma ocupa um lugar singular: quarenta dias de preparação, jejum, oração e esmola, orientados para uma pedagogia da conversão. Trata-se de um tempo inscrito no calendário litúrgico, mas não é um tempo encerrado nos limites do ritual religioso. É um dispositivo social de desaceleração e recentramento. A Quaresma institui uma interrupção no fluxo ordinário da vida, suspendendo excessos, relativizando consumos e convidando a uma concentração no essencial.
Num tempo como aquele que vivemos - marcado pela aceleração sistémica, pela saturação de estímulos e pela exploração intensiva dos recursos naturais - talvez possamos reaprender a ler a Quaresma não apenas como prática devocional, mas também como um tempo social oportuno. Precisamos, enquanto coletividade, de “tempos de contenção”: momentos institucionais e pessoais em que a expansão cede lugar à medida regrada, o consumo à frugalidade, a pressão produtivista ao cuidado.
Artigo completo disponível na Renascença.
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