"As sandálias de um pescador português"
Em 1963, Morris West publicou um livro (adaptado ao cinema em 1966) que se viria a revelar profético: "As Sandálias do Pescador", a história de um padre nascido no Leste da Europa que ascende a Papa e revoluciona a Igreja Católica como o haveria de fazer, muitos anos mais tarde, João Paulo II.
José Tolentino Mendonça, madeirense, filho de pescadores, tem tudo para — retomando as palavras de Cristo a Pedro — se tomar num pescador de almas, ele que aos 54 anos chegou de forma fulgurante ao cardinalato.
Ordenado padre em 1990, doutora-se em estudos bíblicos pela Universidade Católica, escola da qual se tomará capelão e vice-reitor. Ensaísta e poeta, publicou até hoje quatro dezenas de obras. Foi consultor do Conselho Pontifício da Cultura entre 2011 e 2016. Depois de, em 2018, orientar o retiro de quaresma do Papa Francisco, é nomeado chefe do Arquivo Secreto e da Biblioteca do Vaticano e ascende a cardeal em 2019, tornando-se o segundo mais jovem na Igreja a ocupar tal cargo e sendo um dos três portugueses com direito a voto no conclave que um dia escolherá o sucessor de Francisco. Em setembro de 2022, o Papa nomeou-o primeiro prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação.
Considerado figura nacional do ano pela redação do Expresso em 2019, Rosa Pedroso Lima traçou o perfil de Tolentino num texto chamado "O cardeal que não gosta de segredos", onde abordou mais em pormenor a questão dos arquivos. "Ao fim de mais de quatro séculos, o Arquivo passou a designar-se 'Apostólico', retirando o cariz de secretismo em que vivia envolvido, e abriu-se ao mundo. E para mostrar que a Igreja não quer manter esqueletos no armário, Francisco decretou a abertura completa, a partir de março de 2020, dos arquivos referentes a todo o período da II Guerra Mundial.
Nota: Artigo disponível na versão imprensa do Expresso de dia 24 de fevereiro de 2023.
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