As pessoas "querem o básico", aquilo que as faz felizes
A covid-19 alterará bastante os hábitos de compra. Segundo o Índice de Consumidores Futuros, realizado nos Estados Unidos, Canadá, França e Alemanha, a crise sanitária criou novos perfis de consumidor e novas tendências de compra a que as marcas terão de estar atentas. “Poupar e armazenar” — é um dos perfis que emerge desta pandemia e do qual fazem parte os mais pessimistas e orientados para a família; “Cortes profundos” — engloba os que gastam menos em todas as áreas de consumo (27%); “Mantenham-se calmos e prossigam” — onde se encontram aqueles que pouco alteraram a vida com a pandemia (26%); “Hibernar e gastar” — inclui aqueles que estão a gastar mais (11%). São estes os quatro perfis identificados por um estudo de abril da consultora EY.
Apesar de o estudo não ter contado com a participação de consumidores nacionais, as tendências parecem ser transversais a grande parte dos países, e Portugal não é exceção. António Balhanas, administrador da Deco Proteste, acredita que por cá os índices de poupança estão a subir, uma vez que as pessoas estão preocupadas com a incerteza que se vive. “O consumo vai retrair-se em termos de procura e, a partir de 2022, observaremos padrões de consumo diferentes, com os produtos de bem- -estar, saúde e turismo a ganharem relevância.”
Já João Dionísio, professor da Porto Business School e partner da Dendrite — Marketing Research, tem uma opinião distinta. O professor reconhece que há muitas pessoas com elevadas quebras de rendimento que foram obrigadas a racionalizar o seu consumo, enquanto outras estão a poupar apenas porque “há menos onde gastar”. No entanto, salienta, “mal possam vão voltar a consumir mais”.
Prioridade ao básico
O confinamento, que encerrou grande parte dos serviços, foi também um impulsionador de novos hábitos de consumo e de outras prioridades. Segundo um estudo da Accenture, realizado também em abril, grande parte dos consumidores comprou mais bens de primeira necessidade, de higiene pessoal e de limpeza, em detrimento de outros como roupa ou artigos de eletrónica. “As pessoas vão continuar a querer garantir as coisas básicas que as fazem felizes”, aponta João Dionísio, uma opinião que vai ao encontro das conclusões do estudo, que revela que a maioria dos inquiridos garante que irá manter as opções tomadas durante o confinamento.
A pandemia veio ainda acelerar alguma consciência social e ambiental que já tinha começado a mostrar-se como tendência de futuro. “Os consumidores estão mais preocupados com a sustentabilidade dos produtos, das embalagens, com a sua origem, e já não são apenas as faixas etárias mais jovens”, diz António Balhanas. Um caminho que o estudo igualmente aponta: 45% dos consumidores dizem fazer escolhas mais sustentáveis e que irão manter esse comportamento no futuro e 50% garantem comprar alimentos com maior consciência da sua saúde. O desperdício alimentar também preocupa, segundo a mesma pesquisa, cerca de 64% das pessoas.
Já do lado das marcas, a covid-19 trouxe desafios acrescidos, nomeadamente na forma de comunicar com o consumidor, mas acarretou também oportunidades. A opção pelas compras online, que para alguns se apresentou como única alternativa, abriu portas a um conjunto de novas formas de vender. Exemplo disso são pequenos negócios e pequenos produtores que conseguiram chegar diretamente ao consumidor e escoar os produtos de uma forma mais eficiente do que antes da pandemia. Já no mundo físico, as pequenas lojas de proximidade também ganharam novo fôlego, porque muitos preferiram evitar fazer as compras nas grandes superfícies. Agora, salienta Carlos Coelho, presidente da Ivity Brand Corp, “estamos a comprar mais o que é português e a apoiar a produção nacional”.
Fuga para o interior
O medo do vírus conduziu muitos habitantes dos grandes centros urbanos às suas segundas casas, no campo ou na praia, ou às suas localidades de origem. Ali encontraram a segurança que não sentiam na cidade e ali fizeram o seu confinamento, muitos deles em teletrabalho. Esta experiência veio demonstrar que, afinal, e ao contrário do que muitos pensavam, é possível trabalhar à distância e viver num local com maior qualidade de vida, fora do rebuliço da urbanidade. “Em Lisboa e no Porto já não há qualidade de vida”, afirma Jorge Coelho, presidente do Conselho Estratégico Empresarial de Sintra. “No interior, a vida é melhor, mas ainda não há suficientes oportunidades de trabalho”, acrescenta.
Criar as condições para atrair mais população para os territórios de baixa densidade tem sido uma estratégia do Governo, que ainda não deu muitos frutos, mas que é para continuar. “É preciso ter uma estratégia integrada que atraia pessoas para esse territórios e os fixe”, diz Isabel Ferreira, secretária de Estado para a Valorização do Interior. A governante espera, contudo, que a experiência da pandemia possa levar mais pessoas a considerar uma mudança para estas regiões. “Os territórios têm de criar ecossistemas de inovação fortes, e que perdurem ao longo do tempo, para serem cada vez mais atrativos.”
A crise sanitária veio também demonstrar que o digital ajuda a derrubar algumas barreiras que levaram muitos a hesitar quando ponderaram uma mudança. Hoje, como diz Pedro Mata, vice-presidente do Banco Credibom, “a localização das pessoas deixou de ser relevante com o digital”. Se é possível trabalhar à distância sem restrições, o interior pode tornar-se mais atrativo, mesmo que o local de trabalho físico esteja em Lisboa ou noutra cidade.
Ainda assim, Jorge Coelho alerta para a necessidade de reforçar a cobertura digital do país. “Foi preciso a covid para percebermos que a internet ainda não chega a todo o país e assim não pode haver desenvolvimento a sério.” Filipe Santos, Dean da Católica Lisbon School of Business and Economics, acrescenta: “É preciso um projeto nacional com transparência e boa governança” para que o país possa ganhar o equilíbrio demográfico e de desenvolvimento que lhe falta.
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