Paulo Cardoso do Amaral: "A China e a verdadeira moeda digital"
Pois a China anunciou recentemente que vai entrar em testes com a sua criptomoeda, à qual chamam simplesmente de “moeda digital”. Nada que não tivessem vindo a anunciar desde há 3 anos, tendo até referido no verão passado estar prestes a terminar a respetiva blockchain. Por detrás deste sistema estão os gigantes tecnológicos, como o Alibaba e o Tencent.
Mas tem passado praticamente despercebido até agora, o que é perigoso, pois corremos riscos se nos atrasamos. E os riscos são imensos.
Para início de conversa, desta vez, os nossos amigos chineses não têm pejo em anunciar publicamente algo que tenho vindo a partilhar desde há anos com os meus alunos: “A sovereign digital currency provides a functional alternative to the dollar settlement system and blunts the impact of any sanctions or threats of exclusion both at a country and company level”. Então isto não se discute? Será que é um bluff ou um devaneio ligado a uma tecnologia que afinal não passa de um esquema de Ponzi? Mas o risco vai muito para além de o dólar deixar de ser a moeda de referência para comércio internacional, e isso merece uma explicação.
Em primeiro lugar, justifica-se referir que este teste anunciado pela China é bem sério. Será estendido a algumas das maiores cidades e parece envolver um conjunto grande de empresas, incluindo alguns gigantes americanos. O projeto chama-se e-RMB e não é muito diferente do que os chineses já fazem quando utilizam o Alipay ou o WeChat para pagar virtualmente tudo, desde um parque de estacionamento a uma compra em loja. É, aliás, uma vantagem enorme que a China já tem em relação ao Ocidente, pois por cá não há um único sistema de pagamento transversal a todos os países sem passar pelos processadores nacionais ou internacionais (Visa, Mastercard, MB por cá, entre outros). A verdade é que um tal sistema era necessário quando não havia comunicações universais, e também porque o custo da comunicação era muitas vezes superior ao valor da transação. Mas qualquer smartphone é hoje um TPAs seguro, e foi isso que a China aproveitou, sem ter de pagar taxas à Visa e outras redes de pagamento internacionais. Só se pode tentar imaginar porque é que o Ocidente ficou para trás e porque é que o Whatsapp, por exemplo, nunca chegou a avançar com o “roll out” do Whatsapp Pay a nível mundial. Até o Apple Pay não resistiu à tentação de ficar com uma parte das comissões que os comerciantes passaram a aceitar para ter acesso aos pagamentos electrónicos.
Mas na China não é assim, e o novo ambiente de pagamentos digitais generalizados por smartphone pode agora ser utilizado para dar o passo seguinte, e é isso que é perigoso.
Mas então qual é a diferença entre ter o dinheiro digital numa conta bancária, o dinheiro digital do WeChat ou Alipay, e a versão agora proposta do e-RMB?
A conta bancária é uma forma de gerir dinheiro digital de forma centralizada. O WeChat ou o Alipay são como o Revolut, ou seja, a sua liquidez provém e está refletida nas suas contas bancárias, e o dinheiro só sai se for levantado de alguma forma. O e-RMB vem mudar isso tudo.
Vamos ter de imaginar que acreditamos na infraestrutura tecnológica proposta. Com este pressuposto, transferir moeda para e-RMB, esta passa a ter representação digital na BlockChain aprovada pelo regulador chinês. Sendo “trustless”, passa a ter um potencial económico absolutamente avassalador, e muito maior do que a simples substituição do dólar americano no comércio internacional, como se isso fosse pouco. O e-RMB passa a ser a primeira moeda capaz de participar na tokenização de ativos, algo que hoje podemos fazer, mas apenas recorrendo a criptomoedas tradicionais com a volatilidade que se lhes conhece. Ora o RMB está indexado a uma economia inteira, e não é pequena. Mais do que uma stable coin, o e-RMB é a própria coin. Maravilhoso.
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