Paulo Cardoso do Amaral: "Afinal as criptomoedas vieram mesmo para ficar"

O Banco Central do Reino Unido anunciou há pouco tempo a sua Britcoin; o Banco Central Europeu está a preparar o Euro Digital, e, na China, o Yuan digital já é uma realidade. Será que as CBDC vão reduzir o interesse nas outras criptomoedas?

O mundo dos criptoactivos não vai mesmo voltar para trás, e a sua importância está muito para além de investimentos na Bitcoin ou em qualquer outro criptoactivo como reserva de valor. A prová-lo poderia estar o recente interesse nas CBDC - Central Bank Digital Currencies.

O Banco Central do Reino Unido anunciou há pouco tempo a sua Britcoin; o Banco Central Europeu está a preparar o Euro Digital, e, na China, o Yuan digital já é uma realidade. Será que as CBDC não passam de uma reacção à Bitcoin, ou ao Facebook Diem? E será que vão reduzir o interesse nas outras criptomoedas? Não, e vou explicar porquê.

Em boa verdade, quando lemos as notícias e as análises sobre a Britcoin ou o Euro Digital, o que está em causa parece ser a utilização das criptomoedas estatais como meio de pagamento. Mas atenção: no dia em que nosso dinheiro digital, hoje nos bancos, passar a ser uma CBDC, ficando assim confinado às nossas carteiras digitais, deixa de passar pelos bancos, colocando em risco todo o actual ecossistema de pagamentos, para além de destruir a liquidez desses mesmos bancos.

Consequentemente, o valor para a economia das criptomoedas será outro, CBDC incluídas. Como qualquer criptomoeda, as CBDC destes bancos centrais mais atentos serão a base da auto-execução ecossistémica e vão invadir o resto da economia muito para além de simples meios de pagamento. Eis como e porquê. A criação de valor económico com criptomoedas O mundo económico divide-se em dois: (i) as actividades que carecem de identificação jurídica e (ii) as outras de carácter mais anónimo.

Por exemplo, quando compramos um jornal, o pagamento com moeda física é essencialmente anónimo. Já a compra de um Tesla é tudo menos anónima, pelo menos no nosso espaço geográfico altamente regulado (aliás, qualquer vendedor de automóveis pode confirmar a sua própria responsabilidade na verificação da origem dos fundos dos seus clientes, bem como a obrigatoriedade de reporte às autoridades).

O mundo dos criptoactivos veio dar força aos ecossistemas anónimos, ou pseudo-anónimos, levando muitos a pensar que esse é o futuro da economia. Aliás, esta crença tem sido reforçada pela natureza do sistema que dá vida aos criptoactivos, com o nome de Blockchain, porque a identificação de todos os seus elementos é baseada exclusivamente em chaves criptográficas, ou tokens, daí a noção de pseudo-anonimato. Porém, como muitas coisas na vida, nem tudo o que parece é.

Enquanto a auto-execução ecossistémica da Blockchain não suportar a identificação jurídica de pessoas e bens, a Blockchain vai estar confinada a um conjunto de actividades económicas relativamente reduzido e separado da economia tradicional. Não obstante, a solução técnica já está encontrada na forma de identificadores descentralizados, e a solução jurídica já está a ser construída na Europa com o Projecto EBSI (European Blockchain Service Infrastructure).

Consequentemente, a partir de agora, todas as actividades económicas serão passíveis de auto-execução ecossistémica, incluindo todas as actividades que careçam de identificação jurídica. E é essa a razão para a permanência irreversível das criptomoedas. O valor das criptomoedas está no seu forte impulso económico, e é isso que as torna tão fortes. 

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