"Para Moscovo, a neutralização da Ucrânia já não é suficiente"
Qual o objetivo final de Vladimir Putin em relação à Ucrânia?
Militarmente será a capitulação de Kiev e o controlo geral do território. Todavia, à medida que as forças russas forem avançando, podem encontrar maior resistência popular. Poderão, por isso, ter de escolher entre exercitar a sua superioridade militar para resolver rapidamente a situação, com um rasto de destruição maior e provocando clamor internacional, ou, em alternativa, aceitar uma insurgência de baixa intensidade, uma guerra de desgaste, que preservará melhor o que resta da sua imagem, mas que lhes exigirá paciência e refreamento. De qualquer dos modos, a Rússia está na posição de vantagem para obter o seu principal objetivo político: colocar em Kiev um governo pró-Moscovo (mesmo que aparentemente neutral) que compreenda a prioridade dos interesses russos sobre os seus próprios - à semelhança do que acontece na Bielorrússia ou no Cazaquistão.
Tem o Estado ucraniano capacidade para ultrapassar as suas diferenças e manter uma verdadeira independência?
Num contexto de ocupação militar, não faz sentido falar de independência. Como é possível ter liberdade de escolha interna, gerir politicamente o pluralismo interno, quando se foi invadido por uma potência externa? Em que medida depois da ocupação de Budapeste, em 1956, ou de Praga, em 1968, era possível falar de uma Hungria ou de uma Checoslováquia independentes? Não era, e o mesmo acontece neste caso. Antes, o absurdo argumento veiculado pela propaganda russa de que a intervenção visa "desnazificar e desmilitarizar" o Estado ucraniano e proteger a "democracia soberana" deste país mais não é do que uma tentativa de justificação do género - floreados ideológicos à parte - da famosa doutrina Brejnev.
Podemos acabar por ter na Ucrânia uma situação semelhante à da Geórgia, que 14 anos depois da guerra com a Rússia parece neutralizada, ainda sem relações com Moscovo e com duas repúblicas separatistas que escapam à sua soberania?
É possível, dependendo do grau de resistência que os ucranianos forem capazes de demonstrar. Mas estou convencida de que para Moscovo a neutralização da Ucrânia já não é suficiente. Depois das experiências da Revolução Laranja, em 2004, e do Euromaidan, em 2014, Putin já perdeu toda a capacidade de encaixe com este país, como os últimos acontecimentos o comprovam. Depois, a importância da Ucrânia em termos geopolíticos e geoestratégicos é muitíssimo superior à da Geórgia, como um rápido olhar sobre qualquer mapa da região o demonstra. A neutralidade pode ser sempre uma fachada para consumo internacional, mas parece claro que, na ótica do Kremlin, desta vez a "questão ucraniana" tem de ficar definitivamente resolvida em seu favor.
Artigo disponivel no Diário de Noticias.
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