O silêncio na poesia de Eugénio de Andrade

Imaginai que o orador se senta, tira o relógio, dispõe sobre a mesa as folhas da comunicação e, durante o tempo que é suposto ela durar, permanece calado. O silêncio que fazeis para escutar poderia ler nesse silêncio um desrespeito, ignorância, até loucura. Mas foi o que fez o pianista David Tudor, em 29 de Agosto de 1952, ao interpretar a peça 4’ 33” do compositor John Cage, no Maverick Concert Hall de Nova Iorque.

Enquanto na sala iam penetrando os sons do vento e da chuva, durava a mudez das teclas. Estupefactos, intrigados, incomodados, os mecenas do Benefit Artists Welfare Fund agitavam-se, murmuravam, resmungavam, programas caíam, os pés dos que saíam indignados ressoavam pelo chão. Após 4 minutos e 33 segundos o pianista levantou-se e o público irrompeu num tumulto. Não compreendeu que com os seus sons incidentais participara ele próprio na composição da obra e na interpretação.

Nota: Pode ler este conteúdo na íntegra na edição impressa da revista Líder de 1 de dezembro de 2024.