Maria Manuela Brito Martins: "A verdade, a técnica e o humanismo"
Há uma frase que é atribuída a Aristóteles que diz sensivelmente o seguinte:
"Amigo Platão, mas, preferencialmente, amiga Verdade."
Esta frase colocada na boca de um dos maiores filósofos de todos os tempos não deixa de nos interpelar, no e para o mundo de hoje. De facto, nos tempos que correm a verdade parece não ser tão necessária ao nosso modo de viver, e quando o é, serve apenas para reforçar o seu carácter individuante, como se pudéssemos ter domínio sobre ela, da mesma maneira que dominamos as coisas, os objetos e tudo aquilo que fazemos ou produzimos. Constatamos isto mesmo aos vários níveis da nossa existência.
A verdade para a ciência é algo inatingível, quer ao nível teórico quer ao nível da experiência e dos factos, e por isso, a verdade não poderá ser tida como critério de verificação e de comprovação, através das quais se obtêm os resultados do conhecimento, de um dado domínio do real. Por outro lado, a nossa vivência quotidiana só consegue ter algum vislumbre da verdade quando ela manifesta o seu lado subjetivo e particular.
A nossa vida está em constante mudança, nas suas formas de viver, e sobretudo, de habitar o mundo, que se tem apenas pautado por meio do progresso tecnológico. É este progresso tecnológico que nos levou a um contínuo esforço de superação, obrigando-nos a adaptar-nos a esse registo, sem que, contudo, a nossa racionalidade e o nosso modo de ser acompanhe tal progresso tecnológico.
Por outro lado, para a técnica não há necessidade alguma da verdade. É por essa razão que um outro filósofo do século XX afirmava que a "essência da técnica não se identifica com a técnica". E assim como a verdade não se identifica com a validade provisória de um dado conhecimento teórico ou prático, assim também, a essência da técnica não é a técnica, pois o fundamento e a finalidade de algo que se faz, não é redutível aos meios usados para se atingir determinados fins.
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