Maria Conceição A. Silva: "A escola, os exames e a pandemia"
A situação atual de confinamento coloca a todos uma série de desafios. Alunos em casa, vida social inexistente, cancelamentos de tudo o que é evento publico, saúde suspensa para tudo o que não é covid-19, falta de meios nos hospitais e laboratórios, mortes, medo... As consequências sociais, psicológicas e económicas de tudo isto ainda vão dar muitas teses de doutoramento e análises profundas.
No que diz respeito à escola e ao ensino, julgo que esta pandemia trouxe ao de cima uma das fragilidades do sistema de ensino que já tive oportunidade de referir noutros artigos: o ensino centrado nas avaliações e em concreto nos exames (no secundário). Tudo acontece para e em função dos mesmos. As medidas que o Governo coloca em cima da mesa para resolver o problema do regresso às aulas fazem exatamente isso mesmo, focar nos exames e nos alunos que os vão fazer.
Isto é, os critérios seguidos pelo ministério não parecem ser critérios para manter e assegurar a saúde publica, mas sim critérios que têm que ver com a importância dos exames no secundário – em concreto para o acesso ao ensino superior. Ora, não me parece que os alunos do secundário devam ser a prioridade. Primeiro por razões de saúde pública: os jovens a partir dos 15, 16 anos, se ficarem doentes, revelam sintomas semelhantes a um adulto, e a covid-19 nestas idades pode ser problemática para alunos e para pais que serão no geral mais velhos que os pais dos miúdos da pré e básico. Nas crianças mais jovens, o perigo da doença para os próprios é menor e os seus pais são no geral mais jovens. Obviamente há que pensar em medidas para proteger os professores e funcionários, mas as medidas de afastamento, máscaras e higienização poderão ser suficientes para que as coisas corram bem (embora aqui seja necessária a opinião de pessoas mais esclarecidas do que eu) e estes alunos possam regressar às escolas (existem vários exemplos pelo mundo de alunos nestas idades a frequentar escolas, e essas boas práticas podem ser seguidas).
No argumento da saúde pública há ainda a relevar o perigo para a saúde mental de pais e crianças presas em casa por períodos longos (basta imaginar uma família com dois ou três filhos em idades inferiores a dez anos, fechados num apartamento, com um ou dois pais em teletrabalho, para perceber do que se está a falar. Se a mesma família tiver filhos com mais de 15 ou 16 anos as coisas, são em princípio, mais fáceis, porque os jovens requerem e querem menos atenção dos pais).
Segundo, razões de autonomia no estudo. As crianças mais pequenas não têm autonomia para estudar por si próprias, precisam muito mais do professor para aprender do que os alunos mais velhos, e os pais só com dificuldade conseguirão colocar a criança horas em frente à televisão e/ou computador a aprender (de notar que muitos pais em teletrabalho não poderão estar a controlar os filhos na sua aprendizagem). Já um jovem de 15, 16, 17 ou 18 anos tem a obrigação de se desenrascar. Se não aprendeu a estudar sozinho, tem agora uma excelente oportunidade de o fazer! Essa é na verdade uma das competências que lhes será mais útil no futuro! Obviamente que aqui o sozinho é relativo, porque os professores estão disponíveis para apoio ao estudo e à aprendizagem, mas o esforço de aprendizagem tem que ser do aluno.
É interessante como esta situação de pandemia coloca de repente em cima da mesa a questão do ensino vs. aprendizagem. Há em Portugal muito a ideia de que o professor tem uma dose de responsabilidade muito grande pelo sucesso/insucesso dos alunos. São os próprios que o afirmam. Num estudo da iniciativa Escola Amiga da Criança, iniciativa conjunta da LeYa Educação, Confap e do psicólogo Eduardo Sá, em que a Católica Porto Business School colaborou, um dos resultados apontava para os professores se considerarem os principais responsáveis pelos resultados dos alunos, ligeiramente acima dos próprios alunos (a amostra de professores incluía mais de 3000 professores de todos os ciclos espalhados pelo país e é uma amostra representativa da população). O professor assume assim para si próprio um grande grau de responsabilidade pela aprendizagem/resultados dos alunos. Contudo, o ensino à distância inverte toda esta lógica. Nas últimas semanas dei aulas a alunos que não via, que não fazia ideia se estavam atentos ao que eu estava a dizer, nem se faziam as tarefas que eu lhes mandava fazer. Pura e simplesmente não controlava. Tenho a certeza de que todo o aluno que quis aprender na minha aula online, aprendeu, mas todo aquele que não quis, não aprendeu nada.
Como disse Yuval Noah Harari, num artigo recente no Financial Times, vivemos uma impensável experimentação social, onde estamos a testar o que acontece quando todas as aulas acontecem à distância. Sociólogos e psicólogos estarão em melhores condições do que eu para avaliar as devidas consequências – mas uma parece-me evidente. O centro da aprendizagem está agora no sítio certo: no aluno!
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