Luís Caeiro: "A Liderança na era da incerteza"

Poucas metáforas exprimem tão bem a essência dos tempos que vivemos como a de “modernidade líquida”, proposta por Zygmunt Bauman. A estabilidade do passado deu lugar a um mundo líquido caraterizado pela rapidez, permeabilidade e mudança. Quando antes queríamos a continuidade, agora valorizamos a flexibilidade nas atitudes, no trabalho e nas relações sociais. Na sociedade atual, o cimento da tradição, e até a confiança nas conquistas da ciência e da tecnologia, dissiparam-se. Deram lugar às autoridades múltiplas e contraditórias, de peritos e comentadores, fazendo recair sobre cada um de nós a decisão última sobre onde está a verdade e como decidir. Saber se as vacinas são seguras ou o que vestir para ir trabalhar não depende dum consenso científico ou de normas sociais partilhadas, mas duma decisão individual. Cada pessoa ocupa o centro do seu mundo e assume os riscos da sua liberdade.

A incerteza faz parte da condição humana e o otimismo de Fukuyama quando anunciou, em 1992, o fim da história, com o triunfo da paz e da democracia, não passou duma miragem. A globalização, as ruturas tecnológicas, as crises económicas, o terrorismo, os problemas ambientais, a crise do estado social e as descobertas da ciência, generalizaram os sentimentos de incerteza em relação ao futuro. Que inovações disruptivas nos vão surpreender? Qual o impacto das alterações climáticas na economia e na vida quotidiana? A robustez do sistema financeiro consegue evitar novos colapsos? O que nos reserva a volatilidade dos mercados? Onde nos pode conduzir a manipulação genética? Quais os efeitos da automação, no emprego? Os movimentos inorgânicos ameaçam o futuro da democracia? Ao mesmo tempo, a fragilidade dos poderes do estado, face a problemas que não conhecem fronteiras, cria o sentimento de que ameaças como a crise climática, a grande criminalidade e as operações do capitalismo financeiro se passam numa “terra de ninguém”.

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