Lívia Franco: "Um balanço da guerra"

Passado mais de um mês do início da guerra na Ucrânia, que balanço podemos fazer? Antes de mais, é notório que a aposta da liderança russa em intervir militarmente e em larga escala naquele país saiu gorada nos seus pressupostos de base: Primeiro, e ao contrário das expectativas do Kremlin e do que aconteceu em 2004-2005 e 2013-2014, desta vez, os ucranianos têm mostrado uma resistência inquebrantável. Segundo, inversamente ao planeado e esperado por todos, as forças russas experimentam graves fragilidades logísticas, operacionais e de ânimo. Terceiro, e inesperadamente, tendo em vista o que acontecera depois da ocupação e anexação da Crimeia, os países ocidentais, apoiados por uma parte significativa da comunidade internacional, reagem à agressão russa com assertividade e a uma só voz. Quarto, a China que no início das operações defendera as razões da jogada russa coloca-se, entretanto, numa posição de maior cautela e de expectativa estratégica. Quinto, longe de conseguir partilhar com o mundo a sua narrativa dos acontecimentos, a Rússia vê a sua reputação desfeita, encontrando-se agora numa situação de Estado quase-pária. Significa tudo isto que a guerra tem os seus dias contados? É pouco provável.

O que se passa na Ucrânia não tem a ver apenas com o difícil processo de emancipação daquele país da esfera de influência de Moscovo, mas também com o declínio da Federação Russa enquanto potência global. Mas, principalmente, decorre do choque entre dois modos de vida e de organização da ordem internacional que são diametralmente opostos: viver em liberdade e segundo regras claras, ou sob o jugo da tirania e de acordo com os seus caprichos. Tudo isto se joga na guerra da Ucrânia. Os ucranianos percebem-no bem, os restantes povos do mundo nem sempre.

Nota: Pode ler o artigo na íntegra na edição impressa do Público de 3 de abril de 2022.