José Miguel Sardica: "​As universidades na era da IA"

O admirável, ou abominável, novo mundo da IA (Inteligência Artificial) não me desperta fúrias “luditas”, mas faz-me recordar, entre outras reminiscências, uma cena do filme «A Lista de Schindler»: diante de um médico das SS que decidia, nos campos de concentração, quem viveria e quem morreria, um anónimo declara angustiado ser professor de História e de Literatura e, portanto, um “trabalhador essencial”. No regime nazi, onde o dramaturgo Hanns Johst cunhara a frase “quando oiço falar em cultura, pego na pistola”, o esforçado professor foi encaminhado para a fila da morte.

De modo algum quero com isto dizer que a IA é um novo nazismo; apenas que ela suscita perigos e coloca desafios aos saberes e práticas académicas tradicionais, na sua eterna busca e disseminação do conhecimento. A superabundância de informação que, sobretudo, bombardeia os mais jovens pode ser a morte do verdadeiro conhecimento. Repare-se que escrevi “pode”; não é fatal que seja. Os assistentes virtuais e os LLM’s da IA são gigantescas somas agregadas ou ponderadas de tudo o que se escreveu – e circula na Net – sobre um determinado tema ou problema, e na recolha e disponibilização desses conteúdos informativos a máquina faz mais, mais depressa, melhor e mais barato do que qualquer cérebro humano. Ora, a tentação do facilitismo quando quase tudo pode estar instantaneamente num pequeno ecrã tem claros e comprovados efeitos perniciosos: a padronização do pensamento pelo ditame do “feed”, o plágio ou fraude da autoria fantasma de projetos, teses ou livros e, acima de tudo, a preguiça mental de quem apenas “pensa” o que a máquina debita.

Artigo completo disponível na Renascença.