José Miguel Sardica: "Quase 48 anos…"
Amanhã, 24 de março de 2022, o país celebra uma efeméride que não mais se repetirá: o dia em que o regime democrático supera em longevidade o regime autoritário que o antecedeu. A ditadura, primeiro militar, depois constitucionalizada e civil, começou a 28 de maio de 1926 e acabou a 25 de abril de 1974, durando 48 anos, menos cerca de um mês. A democracia de abril completa justamente hoje os mesmos 48 anos, menos cerca de um mês. E amanhã terá mais um dia…
Estamos em democracia há quase 48 anos; ou, se quisermos ser puristas, em liberdade aclamada desde abril de 1974, mas em democracia – constitucional, pluralista e na rota europeia – desde abril de 1976. Como celebrar este triunfo temporal? Que responsabilidades traz, ao país, passarmos a viver há mais tempo em liberdade do que o que os nossos pais e avós viveram em ditadura?
Nenhuma democracia é obra finita. O Estado Novo, esse sim, quis finalizar o tempo, congelar o país e fazer hibernar a História. A liberdade é uma condição existencial, um convénio coletivo e um consenso produtor de progresso – e, por tudo isso, uma obra em perpétua evolução. Dos «D’s» de abril (lembram-se os mais velhos), foi rápido e afinal pouco traumatizante “descolonizar”; o país levou uma década a “democratizar”, até 1986 (foi preciso Eanes, Soares, o FMI, a AD, Sá Carneiro, a revisão constitucional de 1982 e outra vez o FMI no tempo do Bloco Central, à porta da Europa da CEE). E “desenvolver” também se fez, é certo que com poucos recursos próprios e muitos recursos alheios, acelerando a urbanização, a terciarização, a generalização do ensino e a europeização (legal, institucional, cultural, mental, etc.) que nos tornou pertença, periférica ou na moda, esforçada ou de sucesso, de um clube de países ricos, embora hoje menos ricos ou mais incertos do que há três ou quatro décadas.
Artigo completo disponível na Rádio Renascença
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