José Miguel Sardica: "O tempo da força"
O discurso de Mark Carney, o primeiro-ministro do Canadá, no Fórum Económico de Davos é uma peça oratória destinada a resistir à usura do tempo e à velocidade a que as redes sociais trituram as palavras de ontem (ou de hoje) com os posts destinados ao amanhã. Distante das platitudes inconsequentes de tantos outros líderes ali oradores, e ainda mais da longuíssima arenga, narcisista na forma e caótica no conteúdo, com que Donald Trump castigou os presentes em Davos, Mark Carney foi suavemente assertivo no estilo e muito substancial no conteúdo, combinando uma leitura culta e arguta do mundo com a exposição de uma linha de ação, não só para o seu Canadá natal, mas para todos os outros Estados, regimes, líderes e sociedades que estão a viver o que ele definiu como “a realidade brutal” da “rutura da ordem mundial”.
Tratar-se-á, de facto, de uma “rutura” e não de uma simples “transição”. A velha ordem - a do direito internacional multilateral pós-1945 - não vai voltar e a nostalgia não serve como estratégia. A nova (des)ordem global está aí, com as suas dinâmicas em que os fortes “fazem o que querem”, condenando os fracos “a sofrer o que têm de sofrer”. O (pseudo) direito da força submerge hoje a força (moral e efetiva) do direito - e sem os referir, Carney visou assim a Rússia, a China, os teocratas árabes e, talvez sobretudo, o seu vizinho do Sul, os EUA de Trump.
Artigo completo disponível na Renascença.
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