José Miguel Sardica: "O monopólio de Abril"

A última quinzena foi fértil em sinais do que se pode designar como um afunilamento da memória e da História. Houve a comemoração do 50.º aniversário da fundação do Partido Socialista (em abril de 1973); e mais uma celebração do 25 de Abril (este merece maiúscula), naquela trágico-cómica sessão parlamentar (ou como diria Bordalo Pinheiro, “para lamentar”), com uma parte que não era “solene”, mas foi, com Lula da Silva como convidado de honra, a bancada do Chega como animadora de serviço e Augusto Santos Silva como o anfitrião moralista.

O afunilamento da memória nota-se na forma como, cada vez mais, o pessoal que forma o governo, o partido que ocupa o Estado e a comunicação social dominada por clientes dos dois primeiros veiculam a narrativa de que Abril (o de 1974) foi obra do PS e que o regime democrático, que já leva 49 anos, tem sido uma beatífica construção do PS, que de vez em quanto lá alterna com a malfadada direita. Durante anos, antes e depois de 1974, costumava ser o PCP a deter o quase monopólio da luta antifascista. E desse afunilamento se queixava o PS, porque Soares não era Cunhal e, contra o Estado Novo, a Resistência Republicano-Socialista, primeiro, e a Ação Socialista Portuguesa, depois, não se confundiam com os comunistas, como ficou patente nas eleições de 1969.

Artigo completo disponível na Renascença.