José Miguel Sardica: "O governo da contingência"

Os dias mais recentes da política portuguesa ofereceram um espetáculo paradoxal. No dia 10 de Junho houve a celebração patriótica do Dia de Portugal, este ano dividido entre Braga e Londres. Sempre otimista, com estilo de “coacher” motivacional, o presidente da República passou ao lado da gravidade da situação internacional e das incertezas da situação nacional, preferindo elogiar o “povo português”. Fernão Lopes descobriu-o na “arraia miúda” que apoiou o Mestre de Avis, no século XIV. Marcelo Rebelo de Sousa quis arrancá-lo ao pessimismo reinante, lembrando o Brasil, feito por portugueses em 1822, e Timor-Leste, independentizado com o auxílio português em 2002. Os republicanos de 1910 também achavam o “povo” fantástico, desde que ele apoiasse os governos vanguardista de Afonso Costa e do Partido Democrático. Nesta outra República, e no final da cerimónia em Braga, as forças armadas mostraram o aprumo da nação e os populares saíram de lá com o ego em alta.

Tudo vai bem na pátria? Ou o 10 de Junho terá sido um espetáculo estranhamente distante do estado da Pátria? A segunda hipótese parece-me mais correta. Em 2022, cem anos depois da galvanizante travessia aérea do Atlântico Sul por Gago Coutinho e Sacadura Cabral (não sei se o presidente também referiu esta efeméride histórica), um outro Costa (António, não Afonso) governa o país.

Artigo completo disponível na Rádio Renascença.