José Miguel Sardica: "O drama da nova AD"

Com o brilhantismo analítico e a elegância narrativa que lhe eram característicos, Vasco Pulido Valente resumiu um dia como Marcelo Caetano perdeu o país, entre o final de 1973 e a primavera de 1974, escrevendo o seguinte: “[Marcelo] resistiu em vão: a Direita, que acreditava no regime e na ‘missão africana’, não acreditava na mudança; e a que acreditava na mudança, não acreditava nem na ‘missão africana’ nem no regime. Ele estava entre duas eras e dois mundos: no vácuo”.

O marcelismo acabou no “dia inicial, inteiro e limpo” cujo cinquentenário o Portugal de hoje vai celebrar na ressaca da cacofonia eleitoral vigente. Mas esta crónica não é sobre Marcelo Caetano. Excluída a ‘missão africana’, a citação poderia ser transformada num retrato do nosso presente partidário e do nosso futuro, que (a)parece bloqueado. De facto, o PS, que acredita no (seu) regime - porque “só o PS pode fazer melhor do que o PS” (Costa o disse) - não acredita na mudança, naquela grande mudança de que Portugal precisa. E quem acredita na mudança, parece crer muito pouco no regime que ainda existe, sonhando com distopias antissistema que levam a lado nenhum - é o caso do populismo do Chega e do ativismo destrutivo do BE. Entre uns e os outros, a AD é a única que, acreditando na mudança, respeita o regime; e talvez por isso esteja “entre duas eras e dois mundos: no vácuo”.

Artigo completo disponível na Renascença.