José Miguel Sardica: "O dilúvio e a placidez"
As mais recentes eleições legislativas em duas das maiores potências do continente europeu - França e Reino Unido - tiveram resultados na aparência semelhantes, mas na verdade profundamente distintos. Paris e Londres viraram ambas à esquerda. Contudo, as esquerdas vencedoras em França e no Reino Unido, os restantes parceiros políticos derrotados e, sobretudo, a “cultura” que rodeou cada um dos dois atos eleitorais foi muito diferente.
A França está insubmissa há muito tempo, à medida que a presidência centrista de Macron vinha revelando a sua inoperacionalidade. O centro é a geometria vazia de um “não lugar” quando as sociedades se tribalizam e radicalizam, como a francesa, onde o revolucionarismo, e não o reformismo, foi sempre marca genética. Em 2017, Macron foi a barragem erguida por velhos ou inventados partidos que coalesceram em seu torno a fim de impedirem Marine Le Pen de alcançar o Palácio do Eliseu. Agora, a Nova Frente Popular das esquerdas - uma geringonça que mais parece um saco de gatos - foi o dique erguido à pressa para impedir que Jordan Bardella (o factótum de Le Pen) alcançasse o Palácio de Matignon. A democracia falou pela “voz” do voto; mas o RN ultra direitista não desapareceu (bem pelo contrário), e as esquerdas vencedoras mostram ter divisões internas insanáveis, a principal das quais entenderem-se para a propositura de um novo chefe de governo, algures entre Jean-Luc Mélenchon, que quer todo o poder para os seus “sovietes”, e François Hollande, que talvez não enjeite voltar ao poder, para dali moderar a Frente Popular e coabitar com quem correu com ele do Eliseu.
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