José Azeredo Lopes: "Duas velhas e um chapéu"
A CNN entrou em Lyman muito pouco tempo depois de as forças ucranianas assumirem o controlo pleno da cidade que antes estava ocupada pela Rússia. A peça é das mais extraordinárias que já vi desde o início do conflito e; imagine-se, nem sequer mostra cadáveres ou peças de artilharia a rugirem enquanto disparam a morte e a destruição. O primeiro momento impressionante é aquele em que as câmaras expõem, e o jornalista nos conta, um lugar fantasmagórico, uma cidade vazia, quase sem seres humanos. E diz Nick Paton Walsh, editor de segurança da CNN Internacional: a grande maioria dos habitantes, ou desandou perante a chegada dos russos, ou (aqueles que tinham ficado) desandou agora perante a (re)chegada dos ucranianos.
Lá vem, então, o segundo momento extraordinário.
O jornalista encontra duas velhas, uma de 72 anos, mas que parece muito mais pelo muito que já sofreu. Está revoltada e zangada, com um chapéu que tira e põe, de forma convulsiva: cada um dos ocupantes (ucraniano ou russo) é um chapéu. E ela geme o sofrimento a que está sujeita por ter de usar um ou outro dos bonés, sem conseguir agradar a ninguém. “Quer a verdade? Pomos um chapéu, tiramos um chapéu. Pomos um chapéu, tiramos um chapéu!” E lá ia e vinha o chapéu a voltear no ar, modesto, a imitar pele de zebra ou coisa que o valha e a cobrir os cabelos desgrenhados e que não conhecem pintura há muito. “Sou como um rato numa cave, a rastejar para fora da cave…” Para os russos, devia ser suspeita de apoiar a Ucrânia. Para os ucranianos, porque tinha ficado, é com certeza suspeita de apoiar o invasor. De mal com Deus e o diabo, portanto.
Artigo completo disponível na CNN Portugal.
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