José Alberto Azeredo Lopes: "A visita"
O Secretário-Geral das Nações Unidas foi a Moscovo e, depois, à Ucrânia. Esta visita foi antecedida de uma pressão global muito intensa, em que até se envolveram alguns ex-altos responsáveis da Organização, incluindo um, suponho que ex-vice-Secretário-Geral, até hoje desconhecido do comum dos mortais. Será desconhecido, será. Mas, por estes dias, perora doutamente e de forma incansável sobre o assunto – inclusive, antevendo, devido à alegada hesitação de Guterres, o fim do Mundo ou, vá, o fim das Nações Unidas. Guterres devia ter ido sem perguntar ou combinar, Guterres está atrasado, Guterres devia ter ido primeiro a Kiev, Guterres não deve ficar-se pelas referências ao direito internacional humanitário, Guterres sentou-se de forma indolente perante Putin, Guterres isto, Guterres aquilo e um par de botas.
Tenho por certo que interessarmo-nos por estes assuntos é, por definição, muito bom – a afirmação é feita sem qualquer ironia. Torna-nos mais atentos às coisas do Mundo, abre-nos os olhos sobre os impactos na nossa vida de um conflito que se desenrola a milhares de quilómetros de distância.
Simplesmente, há quem continue a pensar que, por ser uma organização internacional, as Nações Unidas põem e dispõem do mandato que lhes comete a Carta. Realmente, põem e dispõem, não há como dizer o contrário. Mas, no que se refere à manutenção da paz e segurança internacionais, o papel decisivo, para o bem e para o mal, é do Conselho de Segurança. Deve dizer-se, por outro lado, que outra qualquer solução seria esdrúxula, por mais que uma certa propaganda crítica insista no assunto.
Transferir o poder do Conselho para a Assembleia Geral? Parece uma grande ideia, vamos então testá-la. Na agenda, sugiro então, desde já, dois tópicos, com a certeza de que conseguirão aprovação (é certo que por maioria). O primeiro, a adoção de uma resolução que, considerando o ato continuado de agressão russo a contar de 24 de fevereiro, autoriza todos os Estados Membros a usarem a força contra a Federação Russa, para assim a obrigarem a recuar para as suas fronteiras anteriores a 2014. Na resolução, até se pode fazer “copy-paste” da fórmula usada pelo Conselho de Segurança: os Estados podem recorrer a “todos os meios necessários”. Pronto, quem quiser está, doravante, autorizado a enviar as suas forças (aéreas, terrestres ou navais) para a zona, para auxiliar a Ucrânia.
Artigo completo disponível na CNN.
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