José Alberto Azeredo Lopes: "Afeganistão: Passou um ano e passaram muitos mais"

Passou um ano sobre a retirada do Afeganistão. Mesmo quem não se interesse muito por este tipo de questões recordará o ambiente confuso, os milhares de pessoas que acorreram ao aeroporto de Cabul na esperança (quase sempre vã) de poderem deixar o território. Muitos sabiam que, afastando-se ao longe o último avião, o seu destino estava traçado. Se fosse mulher, muito pior. Porque não se trataria de uma questão de vingança quanto a uma qualquer colaboração com os “invasores”, mas antes de uma vingança perpétua do novo regime contra os seres femininos.

Deixaram-se para trás muitos dos que nos apoiaram no sonho de um Afeganistão mais livre, mais democrático, desenvolvido e com mais respeito pelos direitos humanos. Hoje, ou foram mortos, ou detidos, ou torturados, com as exceções que vão sendo contadas sobre este ou aquele que conseguiu fugir do território.

Esta é, no entanto, uma história muito mais antiga. Joe Biden não a inventou: quando muito, não conseguiu arranjar-lhe um final feliz. Houve uma avaliação sobre porque é que houve tantas coisas a correrem mal em agosto do ano passado, ao ponto de alguns falarem da queda de Cabul como uma nova queda de Saigão, em 1975? Houve a tal accountability, cuja falta tantas vezes nos é atirada à cara como problema congénito? Não, fez-se o possível por seguir adiante o mais depressa possível e, entretanto, começou a crise e depois guerra ucraniana, e a vida continua, não é?

“Este” Afeganistão dos talibãs surge dos destroços da guerra contra o invasor soviético, começada em finais dos anos 70 do século passado e acabada mais ou menos dez anos depois. Muitos dos líderes talibã que depois estiveram envolvidos na guerra civil que a seguir se iniciou tinham combatido antes contra os soviéticos, e eram-nos simpáticos – segundo o princípio, mais do que discutível e muitas vezes imoral, de que o inimigo do meu inimigo meu amigo é.

Nota: Artigo completo disponível na CNN.