Jorge Pereira da Silva: "Onde é que estão a dar vacinas?"
Temos todos ouvido várias explicações para o sucesso do processo de vacinação em Portugal. Uma parte delas passa pelo civismo dos portugueses – tese que, com o devido respeito, deixa por explicar muitos outros domínios da vida nacional.
Outras explicam o fenómeno com o carisma do “homem providencial”, que em boa hora substituiu um obscuro burocrata partidário – o tal que achava que os fura-filas das vacinas só eram um problema para os eleitores do Chega.
Outras ainda preferem salientar a fraca expressão, entre nós, das ideologias que acreditam firmemente na liberdade individual e desconfiam, por princípio, de tudo o que o Estado quer impor aos cidadãos: sejam impostos, sejam vacinas. Em Portugal, até os liberais são diferentes e têm dificuldade em assumir-se como um partido de direita.
A minha explicação é bem mais simples: as vacinas são de borla. E não há nada de que os portugueses gostem mais do que de uma boa borla. Podem até não precisar, não sentir a necessidade, mas se é de borla… Custassem as vacinas qualquer coisa, 50 cêntimos que fosse, e toda a estória teria sido bem diferente.
Bem conhecedores das inclinações dos portugueses, os autarcas locais dão uma ajuda à festa e oferecem mais qualquer coisa: uma garrafa de água, uma peça de fruta e, por vezes, até um micropacote de bolachas, tudo acondicionado num saco de papel reciclado com o logotipo da edilidade. Na vacinação das crianças ainda juntam umas gomas e uns espetáculos de palhaços. Não há português que não regresse dos centros de vacinação com a leve sensação de que ganhou o dia.
Mas não há bela sem senão. A gratuitidade ajuda também a justificar a falta de escrutínio público relativamente à segurança e aos efeitos das vacinas. Afinal, como diz o provérbio, “a cavalo dado não se olha a dente”! Foi montada uma narrativa – em Portugal, como em muitas outras partes do mundo – segundo a qual “é necessário confiar na ciência”. E vacinas são sinónimo de ciência. Por isso, nem ficaria bem fazer perguntas, quanto mais contestar.
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