Jorge Pereira da Silva: "Máscaras na hora do adeus?"
Quando a pandemia terminar, alguém devia escrever uma história das máscaras. Não apenas das regras de uso, mas também das máscaras propriamente ditas. Primeiro não havia, nem sequer devíamos utilizar, por causa da celebérrima “falsa sensação de segurança”. Médicos e enfermeiros, naturalmente, tinham de usar, para se protegerem. Mas isso de passar elásticos atrás das orelhas (e meter os narizes para dentro) não é para qualquer um. Importa ter o grau académico adequado.
Em matéria de decisões políticas baseadas na ciência não foi o começo mais auspicioso. Felizmente que o sistema capitalista está em grande forma e o mercado – quer dizer, a China – passou a fabricar máscaras em grande abundância e a vendê-las ao mundo inteiro. A quantidade aumentou, o preço caiu a pique e as regras mudaram. Como não há fome que não dê em fartura, as máscaras passaram rapidamente de aconselhadas a obrigatórias. Primeiro no interior, na rua depois. Para os adultos primeiro, para as crianças mais tarde. Centenas de tutoriais, colocados no YouTube por especialistas em saúde desejosos dos seus cinco minutos de fama, ajudaram o povo ignaro a afixar as máscaras no sítio certo.
Nascidas irmãs gémeas das viseiras, as máscaras rapidamente esmagaram a concorrência. Como na evolução das espécies, sobreviveu aquela que tinha maior capacidade de adaptação. Pelo meio ainda surgiram umas espécies híbridas, material transparente como as viseiras, presas como as máscaras, mas com um emaranhado de elásticos. Irremediavelmente votadas ao fracasso, nem a funcionalidade “mostrar o sorriso” lhes valeu.
Nota: Pode ler o artigo na íntegra na edição impressa do Jornal Económico de 1 de outubro de 2021.
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