João Confraria: "Pangloss e a Europa"

A ideia de que interesses geopolíticos seriam dissolvidos pelo mercado e pelo comércio livre foi defendida por muita boa gente, com o fim da guerra fria, a privatização da internet e a excitação da Organização Mundial do Comércio. Serviu para desistir de afirmar interesses nacionais em assuntos económicos e para atacar quem os defendesse. No entanto, e na melhor das hipóteses, não era mais do que uma versão pós-moderna de cegueira panglossiana. Sem surpresas, é uma ideia em crise. A evidência de que a China não liberaliza o seu sistema político, nem a sua economia, e de que tem a capacidade e a vontade para afirmar interesses económicos e estratégicos opostos aos da União Europeia, ou dos Estados Unidos, deve estar a funcionar para muitas mentes como o terramoto de 1755 terá funcionado para criaturas otimistas do Iluminismo. E isto sem falar da política americana.

Há muitos anos que é difícil interiorizar na política económica de muitos países europeus, incluindo o nosso, uma ideia simples: quando estão em causa interesses geopolíticos e estratégicos, o mercado pode ter de subordinar-se à afirmação do interesse público, ou nacional, como agora parece voltar a estar na moda dizer. Não é preciso governar um grande país, com um grande território e muita gente, para perceber isto. Basta olhar para Singapura.

Nota: Este conteúdo é exclusivo dos assinantes do jornal Observador de 20 de dezembro de 2024.