João Confraria: "Os independentes"

Há uns anos, convidaram-me para falar num determinado evento sobre um problema de políticas públicas que na altura era muito discutido. Como não conhecia bem o problema sugeri que, em vez de mim, convidassem pessoas que o tinham estudado. A ideia não foi aceite porque essas pessoas não seriam independentes, querendo isto dizer, na perspetiva da organização do evento, que já tinham feito estudos para algumas das partes interessadas e, portanto, estariam comprometidos com quem lhes tinha encomendado esses estudos. No fim, foi chamado a pronunciar-se alguém que pouco ou nada percebia do assunto, mas não tinha, que se soubesse, ligação a nenhum dos interessados na matéria – era “independente”. Faz sentido? Acho que não.

Esta coisa de se rejeitar uma opinião com base na descredibilização do seu autor é antiga. Tem a ver com mandar matar o mensageiro, em vez de deixar ouvir a mensagem, proeza atribuída a um Dario persa, que não ficou melhor na história por isto. Mas também se entende há muito, e corretamente, que se trata de uma falácia de argumentação – e, assim, deve ser evitada. Os argumentos devem valer por si, independentemente de quem os defende. Já houve tempos em que se ensinavam estas coisas na universidade, logo no primeiro semestre da licenciatura. 

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