João César das Neves: "Os dois problemas da imigração"

Portugal é uma nação de migrantes; de emigrantes e de imigrantes. Situado no fim da terra, sempre fomos um país de migrantes. Todos sabemos dos gigantescos movimentos históricos de população, dos bárbaros aos Descobrimentos, até aos “brasileiros” do século XIX e à “mala de cartão” da segunda metade de novecentos. O fenómeno, porém, não é apenas uma lembrança remota. Desde o ano 2000 já saíram de Portugal 640 mil pessoas e entrou quase milhão e meio. Continuamos a ser uma nação de migrantes, como sempre.

Assim, pode dizer-se que ninguém como nós conhece os dramas da mobilidade. Isso significa que os portugueses sabem, ou deviam saber, algo que parece escapar à esmagadora maioria do planeta: o imigrante é uma pessoa; tem sentimentos e preocupações, tem sonhos e projetos, tem família e amigos. É por amor dos seus que faz a viagem, cara e perigosa, e suporta condições de vida miseráveis. Deste modo, os portugueses deviam estremecer de indignação ao verem outros países a tratar o estrangeiro como gado ou, pior, como vírus.

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