João Borges de Assunção: "O grande confinamento"

Cerca de um terço da humanidade está num estado de confinamento desde finais de março. A maioria está a obedecer às orientações das autoridades e alguns fazem-no por escolha própria.

Esta situação parece-me insustentável.

Passear por Lisboa, ou outras cidades, e ver os hotéis encerrados cria uma sensação distópica e perturbadora. A hotelaria é simbólica de um mundo que nunca pára. Os viajantes precisam de pernoitar todos os dias do ano.

Há muito que os antropólogos notaram que o Homem é uma criatura simultaneamente sedentária e nómada. E as sucessivas civilizações históricas foram capitalizando nas vantagens relativas de um ou de outro desses modos puros de vida.

A ideia do tempo de férias tem um duplo significado de paragem no trabalho e também de viagem. Como se a maioria de nós fôssemos sedentários, mas precisássemos do nosso nomadismo natural para recarregar baterias.

Uma interrupção temporária na normalidade da vida quotidiana para combater uma tragédia sanitária é totalmente aceitável e compreensível.

Mas a mesma interrupção por tempo indeterminado e longo é uma alteração fundamental na nossa própria natureza e irá criar consequências comportamentais essencialmente imprevisíveis.

Começam a surgir os primeiros dados fiáveis sobre as consequências na atividade económica resultantes do confinamento. O PIB (Produto Interno Bruto) terá contraído 9,8% na China no primeiro trimestre deste ano. Em França terá caído cerca de 6% e na Coreia do Sul também desceu 1,4%.

Estas quebras poderiam ser compagináveis com a dimensão da quebra de atividade económica no trimestre do verão em que há uma tradição de gozar férias durante a maioria do mês de agosto. Os dados que as autoridades nos apresentam são normalmente corrigidos dessa sazonalidade. E nalguns países, como Portugal, há até um crescimento forte de muitos serviços de hotelaria um pouco por todo o país com destaque para o Algarve, Madeira e região de Lisboa.

Ler artigo completo aqui.