João Borges de Assunção: "O exagero do empreendedorismo"
A sociedade e a economia necessitam de empreendedores. Eles transformam e organizam novas iniciativas e por essa via melhoram, em média, a qualidade devida da nossa sociedade. Muitos produtos e serviços úteis e novos resultam da sua visão e esforço. Um artigo recente da Harvard Business Review com o sugestivo título de "Os empreendedores e a verdade" chama a atenção para os exageros das promessas de muitos empreendedores.
O tema é complexo claro está, mas parece haver uma certa tolerância por parte de investidores e da sociedade em geral para estes exageros. Há um contínuo que vai do mero exagero até à mentira descarada. Na maioria das jurisdições a mentira não é crime, a não ser sob juramento em tribunal.
Mas como os portugueses têm observado nos últimos anos a mentira leva muitas vezes à fraude. E estas são muito onerosas para a sociedade. Uma fraude não o deixa de ser apenas por ser feita por alguém que se autoidentifica como empreendedor. O tema não é novo. Uma das frases publicitárias mais memoráveis em Portugal é "estes publicitários são uns exagerados", dita num anúncio televisivo dos anos 60 em que um homem, com a cara coberta de espuma, desconfia da quantidade de espuma que o creme fará.
É uma execução criativa, inocente e divertida. E por essa via memorável para toda uma geração. No plano oposto temos algumas promessas feitas por líderes políticos. Uma das mais famosas foi feita pelo candidato republicano às eleições presidenciais de 2016 em que prometeu que seria construído um muro na fronteira com o México pago pelos próprios mexicanos.
Alguns analistas detetaram que os seus detratores o interpretavam literalmente enquanto os seus apoiantes apenas acreditavam na sua visão e não na promessa literal. Ou seja, as frases ditas por líderes políticos e empreendedores não são ouvidas da mesma maneira por todos.
As múltiplas interpretações das palavras dos outros e os enviesamentos nos processos cognitivos abrem um enorme cam po de ambiguidade no uso de certas expressões no mundo da gestão, mas também da política. Quando um empreendedor articula uma visão não está necessariamente a mentir ou a exagerar. Por vezes, está apenas a criar um desiderato comum a investidores, clientes e parceiros. Há uma dimensão motivacional na articulação da visão, que é muitas vezes positiva e geradora de energia construtiva.
As frases ditas por líderes políticos e empreendedores não são ouvidas da mesma maneira por todos. Mas se a iniciativa não gera os resultados esperados em tempo útil, por razões diversas, o empreendedor pode ter um certo incentivo a exagerar os benefícios ou potencial da sua ideia.
Nota: Pode ler o artigo na íntegra na edição impressa do Jornal de Negócios de 9 de julho de 2021.
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