Isabel Capeloa Gil: "Cancelem as Humanidades!"

Depois de uma proclamada falta de relevância, de subfinanciamento, crise de prestígio e baixa atratividade para as profissões ditas de sucesso, tornaram-se o lugar de um debate intenso. Estão no olho do furacão de propostas societais em colisão, convocando agendas políticas opostas, mas que têm em comum a soberba moralista e a ignorância estratégica.

De um lado, defende-se o originalismo e a imutabilidade do acesso ao acervo cultural, estético e filosófico do passado, assente em ideais de perfeição moral, que a brutal realidade dos séculos se encarregou de dinamitar.

Que a orquestra de músicos de Auschwitz levava o comandante do campo às lágrimas ao som de uma sonata de Schumann, apenas demonstra a profícua convivência da arte e da cultura com a barbárie. A educação estética não provoca resistência moral à violência. De outro lado, assume-se a condenação dos objetos artísticos, dos campos disciplinares e das linguagens ditas de privilégio e defende-se a sua erradicação.

Um dos exemplos mais radicais vem do classicista Dan-el Padilla, em Princeton, que defendeu o fim da disciplina de estudos clássicos, definindo-a como "parte vampiro parte canibal", uma força perigosa usada para matar, escravizar, subjugar, devido à forma como tem servido a afirmação da supremacia da raça branca.

Cancelem-se as Humanidades, já! Neste circo político e mediático, o dissenso acaba por ser preferível à anomia. O momento deve por isso ser agarrado como oportunidade de reposicionar as Humanidades, retirando-as do combate sobre versões do passado e religando-as à sua capacidade de projetar futuro.

O saber humanístico organiza-se em torno da compreensão do humano, na sua diversidade e em tempos diferentes. O que pensa, porquê e como age, de que forma se relaciona com os outros e com o ambiente em seu redor. As Humanidades são as guardiãs de um passado, que não é imutável, mas que se refaz e aprofunda à medida que nele se penetra.

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