Isabel Azevedo: "A criatividade e o SNS não tiram férias"

Estamos no período de férias, habitualmente usado para acalmar frenesins e recuperar energias. Viajamos, expomo-nos a experiências diferentes e reabastecemos o repositório criativo. Na rentrée emergem ideias, surgem insights para novos projetos que entram no ciclo de planeamento. Mas este ano a Covid-19 trocou as voltas ao mundo e as férias serão diferentes no formato, mas sobretudo na essência – o descanso. Será um descanso em alerta, porque o vírus não tira férias e porque sabemos que a rentrée será marcada pela incerteza e pela complexidade dos desafios. Iremos precisar de toda a nossa capacidade criativa para imaginar novas soluções em todos os setores e também na saúde.

No SNS muitos profissionais não vão conseguir tirar as merecidas férias. Há que continuar a dar resposta a surtos localizados do vírus, mas também a recuperar os casos de outras patologias que ficaram “suspensos”. Ao mesmo tempo, é preciso preparar a resposta a novos surtos Covid e não só. Desde março que estamos em resposta reativa, maioritariamente com a tomada de medidas de reação imediata, aparentemente avulsas, que vão acompanhando o conhecimento sobre o comportamento do vírus. Agora é preciso ter uma resposta proativa, planeada e integrada, com base no que se aprendeu e nas experiências que resultaram, mas também arriscando em novos modelos de resposta que vão ao encontro das necessidades das populações.

A crise permitiu experimentar alguns modelos que estavam embrionários. Por exemplo, o modelo de hospitalização domiciliária ganhou expressão. Ainda, seguramente, com muito para melhorar, mas a realidade é que se conseguiu assegurar, até junho deste ano, que cerca de 92% dos doentes Covid estivessem a ser tratados em casa. Só foi possível porque havia uma motivação forte – manter as pessoas em segurança, tratá-las e não deixar colapsar o SNS.  Conseguiu-se com alinhamentos institucionais, com o envolvimento de todas as profissões de saúde, famílias e cuidadores e, sobretudo, com a resposta dos doentes, que, no geral, estiveram no comando da sua doença com uma atitude responsável.

If the patient could decide, foi o nome dado a um projeto realizado num outro tempo e numa outra geografia. Em 2013, o Hospital Universitário de Oslo precisava de reduzir significativamente o tempo de espera no diagnóstico do cancro da mama. Usando a metodologia de Design Thinking, conseguiu-se desenhar uma solução, trazendo a perspetiva dos doentes e de todos os profissionais envolvidos no processo. Implicou repensar a forma como as entidades se articulavam e exigiu um trabalho interdisciplinar colaborativo.

Qual o denominador comum nestas duas experiências? Um objetivo claro, uma motivação forte de todos os envolvidos para resolverem o problema da doença com a participação do doente. A grandeza da missão facilita a conjugação de vontades, mas uma vez alcançada uma meta, há uma tendência para voltar ao modelo passado. O desafio agora é manter os modelos novos ativos e ir aperfeiçoando e disseminando as inovações. Quantas boas soluções foram implementadas durante o período da Covid e ficaram circunscritas a um serviço de um Hospital ou de um Centro de Saúde? Quantas destas soluções estão a ser agora abandonadas, apenas porque se assume que não faz sentido trazê-las para o retorno à “normalidade”?

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