Francisca Guedes de Oliveira: "Os contos dos irmãos Grimm"

Os contos dos irmãos Grimm seguem uma receita tétrica, mas clássica e bastante eficaz.

De um lado temos os maus. Completamente maus, sem um osso bom ou um laivo de compaixão. São movidos por interesse próprio e tudo o que fazem ou tentam fazer é geralmente tremendo na perspetiva da(s) sua(s) vítima(s).

Por outro lado, as vítimas são inevitavelmente boas. Sem uma réstia de maldade, e, quase sempre, incapazes de se defenderem contra o mal absoluto que as persegue. O nível de terror é enorme. Desde uma bruxa que engorda crianças inocentes para as comer, a uma madrasta que quer matar a linda e inocente enteada, a uma fada despeitada que quer matar uma criança pura no dia do seu batismo, mas que uma outra consegue salvar condenando-a a cem anos de coma profundo… O rol não para. Sinistro.

Durante muito tempo perguntei-me porque é que se contavam estas histórias às crianças? Para as endurecer perante o mal, para começarem a lidar com a morte e a desgraça? Hoje em dia, acredito que o fito é outro. Mostrarmos às nossas crianças que o bem, o puro e imaculado bem, vence sempre. Nada mais falso. Falso porque não existe esta dicotomia absoluta entre o bem e o mal na vida real, e falso porque, infelizmente, não é verdade que o bem (ou alguma versão deste) vença sempre.

Artigo completo disponível no Jornal Económico.