Filipe Santos: Há um conjunto de empreendedores que vai continuar

O dean da Católica Lisbon School of Business and Economics traça uma evolução difícil para os próximos meses e lamenta que os números “não digam muito sobre o sofrimento das pessoas, o aumento do desemprego e a perda de pequenos negócios”. Pede mais capital para o empreendedorismo e acredita que há fazedores que vão desaparecer, mas outros que vão resistir e reforçar-se.

Referiu a possibilidade de alunos estrangeiros ficarem por cá e criarem as suas startups. Os empreendedores estão muito preocupados não só porque há uma crise mas também porque há muitas dificuldades de financiamento. Como é que vê a realidade do empreendedorismo em Portugal? Vamos dar passos para trás porque tudo vai ficar mais atrasado? Durante anos sonhámos todos com a startup nation e estamos cada vez mais longe de alcançar esse objetivo?
Acho que não, mas há desafios. Eu diria que um domínio é o ecossistema do empreendedorismo e da inovação, tanto comercial como social, mais inovador, com produtos com base em tecnologia, que tem todo um ecossistema de apoio à volta das venture capital, à volta de alguns fundos públicos, como o 200M ou o fundo para a inovação social, que fazem um matching desses investimentos e cujo financiamento vem muito do venture capital.

Esses não vão parar, é isso?
Acho que esses não vão parar. Podem abrandar, reagendar investimentos de forma mais cautelosa. As capitais de risco têm dinheiro para alocar e sabem que a crise é severa mas temporária. Adiar investimentos pode não fazer sentido porque no fundo são projetos que vão desenvolver serviços para o mercado e se calhar daqui a um ano é a retoma. O fundo de inovação social foi lançado no ano passado e está agora ativamente a alocar investimentos. Eu sou membro do comité de investimentos e sei que já vários investimentos foram feitos. Foi lançado agora na inovação social o chamado fee de crédito, que é a parte de empréstimos bonificados para entidades da economia social. Há um conjunto de investimentos públicos que apoiam este ecossistema de inovação e empreendedorismo que vão continuar, que fazem o matching de investimento privado, que incentivam a não adiar investimentos e acho que esse setor vai sofrer aqui um pequeno embate mas vai sobreviver.

Mas outros empreendedores não.
Estou muito preocupado com o setor das pequenas empresas de serviços. Turismo, restauração, serviços às pessoas… Há todo um universo que emprega centenas de milhares de pessoas em pequenas empresas de serviços, e essas sim, estão a ser muito afetadas pela crise – porque as empresas não cortam na conta da luz, cortam nos pequenos serviços que dantes faziam e que deixam de fazer. O confinamento impediu um conjunto de atividades de se desenvolverem, campos de férias, eventos, restaurantes… Há aí um setor importante de pequenas empresas que não são particularmente inovadoras em termos de tecnologia e portanto não têm este tipo de apoios mas que no fundo eram inovadoras e fizeram bem o seu papel mas não têm capacidade de aguentar um ano sem receitas. Essas têm sido apoiadas por alguns dos fundos de lay-off do governo mas estão em grande dificuldade. Conheço casos de pessoas que voltaram atrás 15 anos porque foram expandindo, tinham um restaurante, abriram outro, criaram uma empresa de eventos, e de repente viram o seu mundo transformado. O português tem muito esta ideia do desenrasca e isto eram negócios que faziam sentido num contexto que de repente foi abruptamente alterado. Esse é o setor que mais irá sofrer, a par com algumas médias empresas que poderão não se aguentar pela fraqueza económica. Aí acho que é importante encontrar soluções e há um equilíbrio difícil: por um lado, não podemos manter vivos negócios que já não têm viabilidade nos próximos dois, três, quatro anos; por outro lado também não podemos deixar que essas pessoas de repente entrem na falência sem qualquer apoio. Vai ter de haver aqui um equilíbrio de ver quem é que ainda tem viabilidade e que pode sobreviver, quem é que não tem viabilidade e deve fechar e ser ajudado a ser reconvertido. Vai ter de haver aqui algum esforço de desenho de políticas mais cirúrgicas. Não tenho números exatos mas acho que há mais de meio milhão de pessoas nessa situação.

Para essas pessoas o lay-off simplificado deveria continuar ou é insustentável para o Estado?
Esse é o desafio, porque em alguns setores nós podemos dizer que de facto as restrições vão continuar mais dois/três meses, mas a partir de janeiro é business as usual, e portanto esses negócios depois de hibernarem durante nove meses conseguem voltar à vida e faz sentido manterem o lay-off. Noutros casos, de facto, o mundo mudou, porque algumas coisas que se faziam dantes agora são digitalizadas e não vão voltar. Outras coisas vão estar estruturalmente mais fracas durante dois, três anos. Em algumas áreas de serviços e turismo, se calhar o embate é mais estrutural, e nesses casos manter o lay-off temporário é adiar o inevitável com aumento de ineficiência para a economia. Talvez fosse melhor ter uma solução diferente.

Por outro lado assustam-me soluções de crédito porque os adiamentos e as moratórias e soluções de crédito endividam o setor empresarial já muito débil em termos de capital. Eu preferia soluções. Se for para viabilizar negócios, soluções de capital e não crédito. Porque o crédito exige garantias. E a garantia ou é pública e cria incentivos adversos, ou é privada, do próprio dono do negócio, e põe um ónus muito grande sobre ele, porque se o negócio depois falha é a vida da pessoa que fica em causa. Numa situação como esta, mais crédito não é a solução. Ou é o sistema de lay-off temporário que se prolonga no tempo para certos setores, e isso poderá fazer sentido, ou se encontra mecanismos de capitalização que são buffers de capital para as empresas, que podem ser recomprados mais tarde pelo próprio dono quando as coisas se reequilibrarem. Vai ter de haver aqui um desenho inteligente de políticas para ajudar este segmento que é importante e que é quem mais sofre com esta crise.

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Esta entrevista foi dividida em artigos adicionais, pelo que poderá consultar os seguintes aqui: