Fernando Ilharco: "Um homem entre dois mundos"

As notícias e as fake news, os comentários nos media digitais globais, nos media ucranianos e nos russos, bem como nos media de cada país, evidentemente, são um terreno importante no qual se desenrola o mais grave conflito militar desde a Segunda Guerra Mundial. Mas o mais real, onde se sofre, vive e morre, é na Ucrânia, onde o dia-a-dia e a vida humana passaram a existir noutro tipo de mundo, em rigor, impossível de captar por quem não o viva. A mais clara ligação entre estes dois mundos, o do terreno na ucrânia e o dos media, é Zelensky, o Presidente ucraniano. Mas além de assentar no Presidente ucraniano, a liderança ucraniana basear-se-á numa equipa, quer com aspectos de comando e controlo, quer de rede distribuída. Muito do que se está a passar só se saberá, e estudará, depois de a guerra terminar. Outro tanto nunca se saberá.

Do lado de cá, fora do terreno do conflito armado da crise aguda e do nevoeiro da guerra, um dos aspectos mais relevantes em termos de liderança é, sem dúvida, a performance assertiva, inspiradora e unificadora de Zelensky. Trata-se de uma actuação, possivelmente, decisiva para os diversos tipos de apoio internacionais em curso e, por isso, para a eficácia da actuação no terreno nas forças e das populações ucranianas.

Nem sempre assim é, mas as crises agudas tendem a proporcionar a emergência de lideranças visionárias e mobilizadoras, como a de Churchil na Segunda Guerra, de Mandela na transição de regime político na Africa do Sul, ou agora a de Zelensky. No entanto, não se trata de modelos de liderança que sejam sempre eficazes, em qualquer situação. Nenhum estilo ou modelo resulta sempre, obviamente. Na incerteza, ambiguidade e ambição humanas há quase sempre demasiadas variáveis em causa, demasiados aspectos por conhecer e surpresas para acontecer.

Nota: Pode ler o artigo na íntegra na edição impressa do Jornal de Negócios de 22 de abril de 2022.