Fernando Ilharco: "Psique digital"

As dinâmicas psicológicas pessoais conscientes e inconscientes são modeladas crescentemente pela experiência nos media digitais sociais. "A psique fundiu-se com os media sociais", argumenta Geert Lovink na obra "Sad by Design". Cada vez mais desde tenra idade, a individuação, o desenvolvimento como pessoa, assenta de modo relevante nos media sociais. No online, a comunicação passou a ser um fluxo, um caudal em reconfiguração permanente, uma actualização sem fim. Para ficar onde estou, para ser quem sou, o mínimo que posso fazer é estar em "updates" constantes, comenta Wendy Chun em "Update to Remain The Same". Hoje, ser profissional ou socialmente activo é estar em comunicação constante, enviando sms, mensagens, emails, lendo mensagens, escrevendo posts, publicando fotografias, colocando likes, vendo e ouvindo isto e aquilo, etc.

O torrente comunicacional, imagética e auditiva, é estruturalmente emocional. A velocidade das imagens e dos sons, a simultaneidade do tudo-ao-mesmo-tempo, privilegia a imediatividade, o instinto, a intuição, o emocional. Faz apelo aos confins mais instintivos do cérebro reptiliano, focado na defesa e no ataque. O ambiente digital dificulta a distância, o pensamento racional e o entendimento da realidade em relações de causa e efeito. Se o texto favorece o pensamento. "A imagem é anti-pensamento", como disse Vilém Flusser, o pensador dos media checo-brasileiro.

Nota: Pode ler o artigo na íntegra na edição impressa do Jornal de Negócios de 20 de maio de 2022.