Fernando Ilharco: "Não adianta"

Trabalhar muito e bem, fazendo o que não adianta para a performance da organização, pode ser pior do que trabalhar pouco e mal. O facto de o trabalho, o muito trabalho, fazer parte da generalidade dos casos de grande sucesso profissional pode levar a confundir as coisas. Se ter sucesso é difícil, ter muito sucesso é muito difícil. Daí que quem o tenha seja altamente provável que não só se tenha focado em algo que fez muita diferença, como que tenha trabalhado muito e intensamente. Além disso, pode também ter tido sorte.

A maior parte dos gestores e profissionais empenhados, possivelmente, sente falta de tempo. Sentem-se assoberbados pelo trabalho. Andam de reunião em reunião, online e presenciais, a tentar resolver problemas, compreender as pessoas, evitar conflitos, etc. Mas muita ocupação, muitas conversas, emails e telefonemas, não quer dizer que se esteja a trabalhar muito, nem a ser produtivo, a fazer a empresa andar para a frente e a melhorar a performance.

John Kotter, da Harvard Business School, diz que os gestores devem saber distinguir entre a urgência e falsa urgência. Muito boa gente, e gente competente e motivada, é apanhada na falsa urgência. Reúne muito, lê muitos documentos, escreve muitos memorandos, emails, SMS, fala muito ao telefone, mas... é uma armadilha. Porque decide pouco e contribui pouco para que os outros decidam bem e depressa. Muitas vezes analisa os mesmos assuntos duas, três e quatro vezes, sem nada decidir. E quando surge um problema, fica a trabalhar até mais tarde, como se isso, por si mesmo, resolvesse o problema. Gastar muito tempo à volta de um assunto proporciona a muita gente a sensação de que fizeram o que podiam, estiveram a trabalhar, se vier a correr mal, não terá sido por eles.

Nota: Pode ler o artigo na íntegra na edição impressa do Jornal de Negócios de 10 de setembro de 2021.