Fernando Ilharco: "Aquela decisão"

Se por um lado, a linguagem é a grande edificadora do mundo humano, gerando distinções, significados e relações, por outro, é também ela que mais separa, desliga e divide a experiência humana. Nomeando, categorizando, isolando os objectos da experiência humana, a linguagem cria um mundo de coisas e de fenómenos diferentes, que tantas vezes, no entanto, são bem mais semelhantes do que aquilo por que são tomados.

Os fenómenos da confiança, decisão, ambição, estratégia, visão estão todos ligados, evidentemente. Na linguagem e no mundo empírico, no mundo que acontece, na experiência vivida. Em rigor, a realidade que aquelas palavras apontam e descrevem é a mesma, embora enfatizando diferentes aspectos, preocupações, perspectivas, maneiras de pensar, etc. A vida vivida, por mim agora, experimentada física, emocional e mentalmente, a "vida dividida" de que falava Fernando Pessoa, é afinal a única vida, uma vida não dividida.

Sigmund Freud dizia que as palavras eram o que o Homem tinha mais perto da magia. Mas a imaginação, a vontade, a ambição, tantas vezes também não estão longe de passes de mágica. Uma das consequências de assumir uma estratégia é uma clareza imediata. Um caminho e objectivos precisos clarificam a realidade à nossa volta. A clareza, por sua vez, origina uma maior confiança, proporciona mais energia, intensifica a vontade e a motivação. Mas o contrário também é verdade. Bem dormido, com mais energia e mais motivado, qualquer profissional fica mais confiante, raciocina mais rápido, arrisca mais vezes e decide mais depressa.

Nota: Pode ler o artigo na íntegra na edição impressa do Jornal de Negócios de 3 de setembro de 2021.