Fazer reféns como "diplomacia"

Há mais de um ano e meio que Michael Kovrig e Michael Spavor vivem em celas com três metros quadrados, comem pouco mais que arroz cozido e vegetais e não têm praticamente contacto com o exterior a não ser os (poucos) livros que recebem e a carta que todos os meses são autorizados a escrever às famílias. O relato das condições em que os dois diplomatas canadianos estão detidos na China voltou às páginas da imprensa internacional depois de. a 19 de junho. terem sido formalmente acusados de espionagem. Não são claras as acusações que lhes são feitas e há vários sinais de que a sua prisão pode ser uma forma de retaliação pela detenção de Meng Wanzhou, a CEO da Huawei que enfrenta um processo de extradição no Canadá para ser julgada nos Estados Unidos por ter furado sanções impostas ao Irão.

Os contornos pouco claros destas e de outras detenções fazem organizações de defesa dos direitos humanos, como a Safeguard Defendera, falar numa "diplomacia de tomada de reféns", segundo a qual o passaporte pode ser o único motivo para uma acusação judicial, numa lógica de retaliação e chantagem feita pela China a outros países. Miguel Monjardino do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, não tem dúvidas de que Michael Kovrig e Michael Spavor "são reféns" e que a sua prisão foi uma reação à detenção de Meng que, "do ponto de vista chinês, é uma princesa e representa a ascensão e ambição tecnológica da China". Mas enquanto Meng Wanzhou passa por um processo de extradição que pode arrastar-se durante cinco a oito anos "numa mansão luxuosa no Canadá" e com o recurso aos melhores advogados, Monjardino nota que a "representação legal dos diplomatas canadianos tem sido difícil ou duvidosa" numa China que "obviamente não é um Estado de direito".

Isolados e alheios à pandemia

Os relatos feitos por Vina Nadjibulia, a mulher de Kovrig, a partir das cartas do marido, mostram a falta de garantias e direitos a que estão sujeitos os detidos que, graças à acusação de espionagem, podem vir a ter de cumprir uma pena de prisão perpétua. Num artigo publicado no jornal canadiano The Globe, Vina conta que Michael não tem acesso a notícias, vê as cartas que escreve serem censuradas e todas as conversas que teve com pessoal consular foram monitorizadas.

A pandemia de Covid-19 serviu para restringir ainda mais as visitas dos representantes legais do diplomata de 48 anos. que está tão isolado do mundo exterior que só soube da existência do novo coronavírus através de uma chamada a que teve direito para falar com o pai doente. Vina Nadjibulla diz que tanto o marido como Spavor "são peões" numa luta de poder geoestratégico. E a situação em que estão levou, há duas semanas, um grupo de proeminentes canadianos (incluindo ex-ministros, diplomatas e juízes). a escrever ao primeiro-ministro Justin Trudeau pedindo-lhe a libertação de Meng como moeda de troca pela liberdade de Kovrig e Spavor. Trudeau rejeitou a ideia. argumentando que isso legitimaria a tomada de reféns feita pela China e poria mais canadianos em risco.

O especialista em relações internacionais Nuno Rogeiro diz, contudo, que "é prematuro falar destas situações como algo generalizado" e nota que "não há oficialmente nenhuma posição nem nenhuma iniciativa" da parte do Ministério dos Negócios Estrangeiros português relativamente a estas suspeitas de "diplomacia de tomada de reféns".

Miguel Monjardino considera, porém, que "o silêncio da comunidade internacional é muito revelador de dependência em relação à China" e de "interesses económicos muito poderosos" que também se revelam em Portugal. "A grande questão é saber como os países europeus equilibram interesses financeiros e económicos com os seus interesses e valores políticos", comenta à SÁBADO, criticando "a relutância que há em Portugal, do PS ao CDS, em encarar o Partido Comunista Chinês como ele é".

"Há uma grande dependência e miopia estratégica na relação entre a Europa e a China", observa o especialista em geopolítica.