Educadores e formadores em discurso direto
A Covid-19 veio acelerar o uso das tecnologias digitais, obrigando a alterações na forma de dar formação. Reitores, presidentes de politécnicos, professores, investigadores, responsáveis por centros de investigação e empresas de formação explicam ao Jornal Económico como enfrentaram os desafios da pandemia e antecipam soluções formativas e tecnológicas. Inovar é preciso.
João Duque | Presidente do Centro Regional de Braga da Universidade Católica Portuguesa
1. A pandemia da Covid-19 está a obrigar a mudar a forma como se dá formação?
O primeiro impacto, em março, obrigou a modificar radicalmente, passando tudo para lecionação online, seja em que tipo de formação for. Entretanto, depois da experiência feita e tendo em conta as exigências da circunstância, prevê-se que o próximo ano letivo seja diferente. Haverá necessariamente uma articulação do presencial, com regras diferentes, com o online, em diversas modalidades. Algumas dessas modalidades já anteriormente eram aplicadas, pelo que a novidade não é completamente radical. Mas vai exigir, mesmo assim, muitas transformações e um investimento na qualidade dos recursos construídos online, desde a lecionação síncrona à distância, até à disponibilização de materiais gravados, etc.
A experiência destes meses também mostrou o valor da lecionação presencial, que nunca poderá ser abandonada. Mesmo que possa haver formações de curta duração completamente à distância, um curso universitário normal não deverá ser totalmente nesse formato, pelo menos não habitualmente. É uma das lições da Covid.
Da nossa parte, para já, combinaremos várias modalidades. Em princípio, queremos que os alunos venham, pelo menos, uma vez por semana à Universidade. Mas a maioria virá mais que isso.
2. A sua instituição está preparada para responder a este desafio?
Consideramos que a Universidade Católica Portuguesa está preparada para o desafio. Claro que isso depende muito das áreas dos cursos, assim como do perfil dos docentes. Mas, em geral, estamos bem preparados. Mesmo assim, vamos intensificar a formação dos docentes para esse desafio, uma vez que não vai ser possível ter toda a lecionação de forma presencial. E queremos aproveitar a oportunidade para desenvolver outras possibilidade pedagógicas. Já temos grupos de especialistas a trabalhar intensamente o assunto. Poderá ser um ano letivo muito interessante, cheio de desafios e novas experiências pedagógicas.
Jorge Pereira da Silva | Diretor da Escola de Lisboa da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa
1. A pandemia da Covid-19 está a obrigar a mudar a forma como se dá formação?
Certamente. Há aspetos do nosso modelo de ensino de que não podemos abdicar: um ensino próximo dos alunos, personalizado, com aulas interativas e muito dialogadas. Mas também um modelo de ensino adequado à aquisição de um saber que tem uma grande dimensão prática, como é o Direito, pensado portanto na perspetiva da resolução de problemas concretos, cada vez mais diversos e desafiantes. Em contrapartida, como os momentos de contacto presencial terão duração mais limitada, têm que ser mais intensos e mais produtivos.
Aproveitados ao máximo para efeitos de aplicação de conhecimentos e avaliação contínua.
Além disso, vamos continuar a acelerar a transformação digital do ensino, com novos formatos de apresentação de conteúdos, novas plataformas de interação com os alunos, melhor aproveitamento do enorme acervo de recursos hoje disponíveis online.
A grande novidade, aqui, é a introdução de conteúdos ditos assíncronos, como vídeos, podcasts, etc.
2. A sua instituição está preparada para responder a este desafio?
Está aprovado e em fase de execução o BLaw@Católica, que é um modelo de b-learning adequado ao ensino do Direito. Arrancará pontualmente a 14 de setembro.
Os seus princípios básicos são o aprofundamento do ensino personalizado, a igualdade de oportunidades para todos os alunos e, em consequência, a garantia da qualidade do ensino em todas as suas dimensões.
Naturalmente, a preocupação com a segurança e saúde de toda a comunidade académica também está sempre presente e, por isso, estão previstos diferentes planos de contingência, em função da evolução da realidade.
Nelson Ribeiro | Diretor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa
1. A pandemia da Covid-19 está a obrigar a mudar a forma como se dá formação?
A pandemia trouxe dois tipos de mudanças: contingentes e estruturais. No caso da Faculdade de Ciências Humanas, após termos suspendido as aulas no campus, retomámos o ensino através de diversas plataformas digitais e em apenas 48 horas foi possível ter todas as unidades curriculares a funcionar com os professores a assegurarem a lecionação à distância. Embora tenha sido um semestre exigente para os estudantes e também para os professores, estávamos bem preparados para lidar com a situação dado que nos socorremos de plataformas que já utilizávamos no nosso dia a dia, as quais passámos a usar com maior intensidade.
Muitas das metodologias de ensino que passaram a ser utilizadas resultaram de um plano de contingência que tivemos de colocar em prática, tendo-se revelado eficazes para o tempo que vivemos. Contudo, ficou também claro que há uma componente relacional, essencial no processo de aprendizagem, que não se consegue desenvolver da mesma forma com aulas presenciais e à distância. A componente relacional da comunicação entre professores e alunos, mas também entre pares, é algo que considero que não deve ser desvalorizado pois permite aquisições mais sólidas. Embora uma parte desta relação possa ser criada à distância, existem diversas dimensões da comunicação que ficam impossibilitadas quando esta é mediada por um ecrã no qual apenas vemos o rosto dos alunos e estes o rosto dos professores. Por isso, em setembro iremos retomar aulas presenciais, ainda que diferentes do modelo que tínhamos em vigor antes da pandemia dado que iremos criar as condições para que todos possam manter o distanciamento social mesmo no interior das salas de aula.
Existem também lições que todos aprendemos nos últimos meses e que acredito irão mudar a formação de forma estrutural. Refiro-me, nomeadamente, a uma utilização mais intensiva do uso plataformas e de softwares online, alguns com uma componente de ludificação, que são um valor acrescentado para alguns tipos de aprendizagens.
2. A sua instituição está preparada para responder a este desafio?
A inovação nas metodologias e modelos de ensino não são uma preocupação que tenha sido trazida pela pandemia, mas é antes algo que faz parte do quotidiano da Faculdade. Neste momento, estamos preparados para lidar com a contingência atual, ainda que conscientes de que os nossos planos terão de ser ajustados à evolução da disseminação do vírus. Iremos iniciar o semestre com um modelo de blended learning que permitirá aos estudantes retirar o melhor proveito das aulas no campus e do que poderá ser realizado à distância. Quanto aos desafios de fundo, de procura dos modelos mais eficazes de aprendizagem em cada momento, é algo que exige um trabalho constante de monitorização e de adequação dos métodos de ensino às diferentes tipologias de cursos e de unidades curriculares.
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