Daniela Silva: "Disrupções no país dos brandos costumes?"
Eis os factos que resumem as eleições de 24 de Janeiro e que fazem despertar forte regozijo nuns ou desespero e irritação noutros, numa época pródiga em militâncias emocionais. Estaremos a entrar numa era de reconfiguração político-partidária em Portugal?
Embora a elevada percentagem de abstenção nestas eleições recomende que evitemos extrapolações abusivas, existem sinais que têm de ser valorizados, pois muitos deles nem são novos. Uma larga percentagem de portugueses continua a sentir-se marginalizada por não encontrar condições favoráveis à realização dos seus projectos familiares e profissionais fora dos centros urbanos do litoral.
Reduzidos a escassas ofertas de emprego e perante dificuldades burocráticas que esmagam a iniciativa empresarial, o escape para o litoral é demasiadas vezes mais uma imposição do que uma escolha. Soma-se aí a débil oferta de serviços de saúde, educação e formação, rede de transportes, e até cultural, a que as populações estão reduzidas.
Ainda que possa soar arcaico aplicar a velha dicotomia "eleitorado rural vs eleitorado urbano" ao comportamento eleitoral, a verdade é que esta continua pertinente, sobretudo porque os vícios do regime centralista teimam em acentuar esses contrastes. E a verdade é que um incêndio em pleno Chiado será sempre mais mediatizado e lamentado do que as dezenas de milhares de hectares que ardem anualmente por todo o território nacional.
Para além dos constrangimentos materiais, existem as naturais diferenças territoriais enraizadas no domínio dos valores. Por um lado, significativa parte do eleitorado de regiões do interior identifica-se com propostas de teor patriótico que priorizam as necessidades comunitárias e a identidade local e, por outro lado, o eleitorado urbano, geralmente desenraizado e socialmente desvinculado, apoia preferencialmente candidaturas do sistema ou propostas progressistas e liberais.
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