Cristina Sá Carvalho: "Escola: a hora da inovação compulsiva"
Parece que o modelo de escola a tempo inteiro chegou ao fim do seu controverso reinado e que novos modelos de gestão das escolas se impõem para evitar uma rutura humana e financeira. Assim, esta é a hora da verdadeira descentralização, talvez da municipalização plena.
Todos reconhecemos que os dias e os meses que se seguem serão de longas horas de reflexão, de escolhas cirúrgicas e de equilíbrios improváveis. Estamos, e estaremos, muito gratos a todos os profissionais do Serviço Nacional de Saúde, à coragem dos doentes que batalharam ao seu lado para querer viver, e às empresas e funcionários que mantiveram a nossa vida segura, organizada, alimentada, limpa. Também não esqueceremos a energia persistente dos pais de família a trabalhar e a ensinar em casa, nem todos os bravos habitantes de lares e outras estruturas de acolhimento.
E, agora que a batalha da implosão do Serviço Nacional de Saúde parece ganha, está na hora de inventar um mundo novo e o governo – muito mais ameaçado por um “Passos Coelho” do que por um “Churchill” – terá de estimular as medidas de recuperação de quase todos os sectores da sociedade. Dentre estes, a escola joga o habitual papel de go-between e é imprescindível assumir as mudanças que é necessário operar para que possa funcionar em confiança, inclusão, equidade e competência educativa.
Como a ciência aconselha a permanência do afastamento profilático, as escolas terão de trabalhar por turnos, de um reduzido número de horas, para garantir grupos pequenos nas salas e contenção durante os recreios. Como as turmas portuguesas são grandes e muitos equipamentos escolares envelhecidos e precários, é imprescindível um ajustamento restrito da carga horária presencial – a gerir com as famílias –, a introdução de atividade física orientada nos intervalos, a multiplicação de funcionários para garantir a ordem e a limpeza nos espaços comuns, tudo pensado, também, para proteger os adultos e as famílias, sem rebentar com o orçamento.
Parece que o modelo de escola a tempo inteiro chegou ao fim do seu controverso reinado e que novos modelos de gestão das escolas se impõem para evitar uma rutura humana e financeira. Assim, esta é a hora da verdadeira descentralização, talvez da municipalização plena, já que as decisões devem ser tomadas com um grande conhecimento das realidades mais locais e com a colaboração plena dos docentes, dos funcionários e dos pais. Certamente os professores mais experientes poderão gerir os currículos e reanalisar os programas em torno das aprendizagens essenciais de modo a discernir aquilo que será trabalhado em modo presencial e aquilo que pode ser encaminhado para a telescola e as plataformas de interação à distância.
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