Célia Manaia: "Micróbios com coroa"
No espaço de aproximadamente cem anos várias têm sido as ocasiões em que um vírus, graças a um infeliz conjunto de coincidências, se consegue tornar pandémico(1). Tornar-se pandémico, significa que um novo agente infeccioso, para o qual a maioria das pessoas não tem imunidade se espalha pelo mundo. Por outras palavras, quer dizer que o puzzle que constitui o material genético deste vírus o tornou um verdadeiro caso de sucesso – conseguiu conquistar novos hospedeiros, que invade muito facilmente, podendo em muitos hospedeiros não causar doença grave, o que aumenta ainda mais a sua rápida propagação.
A mais grave pandemia de que há memória antes da que vivemos hoje, foi a chamada gripe espanhola. Com as devidas proporções, estamos hoje a viver o que os nossos antepassados viveram, mesmo em cima de outro flagelo que foi a Primeira Guerra. Esta pandemia não terá tido origem em Espanha como o nome sugere, mas eventualmente na Ásia, tendo sido propagada pelas tropas que regressavam às suas casas. Estima-se que este temível vírus tenha causado a morte a pelo menos 50 milhões de pessoas, de todas as nações, idades ou condição (1). O conhecimento e meios disponíveis eram então bem mais limitados do que hoje, e a própria Guerra facilitou o caminho ao vírus. As casas, onde muitas vezes tinham morrido famílias inteiras eram encerradas para desinfestação. Como agora, o isolamento era a melhor e quase única defesa.
São desconhecidas as razões, se é que existem, que levam à combinação de uma explosiva mistura de pedaços de informação genética, feliz para os vírus, e absolutamente dramática para os humanos. Porém, temos que reconhecer que são situações como estas que nos mostram que a mão da natureza é sempre mais forte do que a dos humanos. Com humildade, temos que admitir que, em 2020, com todo o avanço científico e tecnológico de que dispomos, um “simples” vírus deixa-nos paralisados. E não é o medo que nos paralisa, é mesmo a necessidade de enfrentar esta ameaça da melhor forma — por um lado, evitando a sua propagação, por outro, na procura de soluções para a combater — mas isso levará o seu tempo.
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