Carlos Marques de Almeida: "Avenida Benformoso"
As manifestações descem a Avenida da Liberdade. A polícia sobe a Rua do Benformoso. Descer é o privilégio de quem decide como cidadão. Subir é o destino de quem vagueia sem pátria. Estas duas ruas de uma Lisboa transformada são o retrato que a política portuguesa não sabe ler porque não sabe compreender. Na Avenida da Liberdade desfila a nova cidade dos turistas que afluem aos cofres do Estado e da Câmara com impostos e receitas que se julgam a riqueza da nação. Na Rua do Benformoso situa-se a nova cidade dos imigrantes que afluem ao espírito do Estado e da Câmara a necessidade e o desespero que julgam a pobreza da nação. Entre o cosmopolitismo novo-rico da Avenida da Liberdade e o multiculturalismo pós-colonial da Rua do Benformoso está a realidade de uma Europa desconhecida do provincianismo periférico nacional. É o clássico desencontro entre as duas nações que não se conhecem, que não se encontram, que apenas se observam à distância higiénica de um preconceito. É nesta distância entre dois mundos que a política se perde e nos faz perder. Sobra o mito de um país orgulhoso, senhor de tanto passado, nação que deu mundos ao Mundo, mas que não passa afinal de um país miseravelmente míope. Entre a Lisboa Parque-Temático e a Lisboa Gueto Pós-Colonial qual o lugar dos portugueses? Qual a visão para o Portugal do futuro?
A política portuguesa está encostada à parede. E está encostada à parede porque não tem resposta política para o enclave turístico nem para o gueto imigrante nem para a vida portuguesa. Colonizados pelos turistas, pressionados pelos imigrantes, acossados pelos portugueses, o discurso político refugia-se no tema da segurança para fugir a uma realidade complexa que lhe foge por entre as mãos. A segurança torna-se o tema do momento pela facilidade da cor da pele, pelo desfasamento de costumes, pela urgência de preencher um vazio sem as exigências de pensar a política.
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