Bernardo Ivo Cruz: "Uma nova Guerra Fria?"

Menos de um ano após o fim da II Guerra Mundial, o primeiro ministro britânico Winston Churchill avisava que "uma cortina de ferro" separava as democracias ocidentais dos países ocupados pela União Soviética. A Guerra Fria que se seguiu opôs duas formas de olhar o mundo e marcou o sistema internacional até à noite de 9 de novembro de 1989, quando a queda do Muro de Berlim simbolizou o rasgar da Cortina de Ferro e o início de uma década de colaboração à volta dos princípios do multilateralismo e da negociação internacional. Não sendo um sistema perfeito, permitiu resolver ou minorar alguns dos dramas e aflições do planeta, incluindo guerras e conflitos, independências e transições para a democracia, codificação de direitos internacionais e criação e reforço de novos direitos individuais e coletivos.

Com altos e baixos e maior ou menor eficácia, o sistema multilateral foi central nas relações internacionais até ao surgimento de líderes populistas em alguns países que influenciam o mundo de forma particular e a afirmação de outros que, nunca se sentindo confortáveis com a ideia e a prática de limitação da soberania nacional, tornaram-se mais afirmativos e mais vocais nas suas críticas.

Temos hoje uma parte da Comunidade Internacional, onde pontuam os Estados Unidos, a maior parte dos países da União Europeia, o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália, a Nova Zelândia, a África do Sul, Cabo Verde ou o Botswana que defendem o papel das organizações multilaterais na gestão dos assuntos do mundo e dos estados. Visões diferentes têm a Rússia ou a China, que entendem que a cooperação internacional não pode nem deve ter papel ou impacto na organização política interna dos países. Ou seja, para uns há um papel para a comunidade internacional na promoção de modelos que contribuam para o crescimento económico, o desenvolvimento social, a sustentabilidade ambiental e, também, a boa governação. Para outros, a cooperação em matérias internacionais é necessária mas no interior de cada país, e citando ditado popular, "só sabe o que se passa no convento quem mora lá dentro".

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