Arménio Rego: "Treinadores - Mais romance do que realidade"

A crer no que tem ocorrido nos últimos anos, não decorrerão muitos meses até que comece a dança dos treinadores das equipas de futebol profissional, sobretudo das que competem na Primeira Liga. Espera-se que, mudando o treinador, se altere a sina da equipa. No entanto, o efeito do treinador no desempenho da equipa tende a ser inferior ao que frequentemente se presume. A alguns treinadores (como Diego Simeone, Jürgen Klopp, ou Mourinho) pode ser atribuído papel relevante. Mas é difícil manter esse impacto durante longos períodos temporais - sendo o caso de Mourinho paradigmático. Em termos médios, sugere alguma investigação, a percentagem de influência do treinador sobre o desempenho da equipa é inferior a 20%. Este valor faz sentido porque o desempenho de uma equipa depende também de fatores imponderáveis, da sorte e do azar, e de aspetos fora do controlo do treinador. Influência maior reside no gabarito dos atletas. Alguns dados sugerem que jogadores como Messi, Neymar, Harry Kane ou Ronaldo acrescentam mais pontos à equipa do que os treinadores. Em suma, o papel dos treinadores - como, aliás, o dos líderes em geral - é romantizado.

Assim se compreende porque, em média, a mudança de treinador não costuma estar associada a melhorias do desempenho das equipas, pelo menos no curto-médio prazo. Algum tempo é necessário para que se desenvolva ajustamento entre o estilo do novo treinador e a equipa. Enquanto esse ajustamento mútuo não ocorre, as disrupções geradas pelo novo treinador podem contribuir para um declínio no desempenho da equipa. Ou seja, o efeito do novo treinador pode emergir apenas decorrido tempo significativo.

Daqui decorre que a substituição do treinador representa total irracionalidade? Será apenas uma forma expedita de apaziguar o desânimo e aplacar a ira das hostes clubísticas? Será a substituição o fruto da soberba e do excesso de autoconfiança das direções - que sobrestimam a sua capacidade de alterar o rumo dos acontecimentos mediante a substituição do treinador? A resposta a estas questões não é perentória. Há mesmo razões para supor que a nomeação de novo treinador é uma decisão racional, desde que lhe seja concedido tempo suficiente para afirmar o seu estilo, implementar um novo modelo de jogo e desenvolver a "sua" equipa. Acresce que a substituição do treinador pode ser a resposta adequada em duas situações. Primeira: é necessária uma "chicotada" na equipa para obter um par de pontos que permitam escapar à descida de divisão. Segunda: o treinador "perdeu o balneário". Quando os jogadores, sobretudo se apoiados pelo capitão, perdem a confiança no treinador, a permanência deste pode ser prejudicial. A saída de Mourinho do Manchester United terá resultado, pelo menos parcialmente, da conduta de oposição e crítica que o então capitão Pogba lhe dirigiu.

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