Alexandre Freire Duarte: "Com ódio “desde” a Turquia"
Setembro de 2022. Ocasião para nos lembrarmos, em anos “redondos”, de diversos acontecimentos. Desde logo, os 1500 anos do aprisionamento de Severino Boécio; os 1000 anos da incursão do Arcebispo Pilgrim de Colónia nos principados meridionais da Península Itálica; os 500 anos da “tradução” do Novo Testamento por parte de Lutero; os 250 anos da aniquilação, por um furacão, da então colónia francesa de New Orleans; e, no que motiva estas palavras, os 100 anos da destruição selvática de Esmirna às mãos das forças turcas.
Para um Cristão, Esmirna está repleta de evocações. Cidade no centro da costa ocidental da atual Turquia, é uma das comunidades referidas no “Livro do Apocalipse” (séc. I) e foi nela que foi bispo, e martirizado «segundo o evangelho» (isto é, por amor e para o amor), Policarpo de Esmirna (séc. II), discípulo direto de João o Evangelista e mestre de Ireneu de Lião. A comunidade cristã dessa cidade recebeu uma das mais extraordinárias cartas de Inácio de Antioquia (séc. II), chegou a adquirir o estatuto eclesiástico de Metrópole (séc. IX) e acolheu, como lugar de refúgio das perseguições iconoclastas, Teodoro o Estudita (séc. IX).
Não admira, assim, que esse evento de setembro de 1922 esteja a ser motivo, por um lado, de recordações, comovidas e pungentes, nas comunidades cristãs gregas e arménias (que sabem que Deus é quando nos unimos no espaço e no tempo), e, por outro lado, de celebrações, no mínimo lamentáveis, por parte do atual regime, francamente anticristão, de Recep Erdoğan.
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