Paulo Cardoso do Amaral: "Afinal a blockchain é a melhor amiga do RGPD"

Aprendi, há muitos anos, que em informática tudo se resolve com um nível suplementar de indirecção. Quem disse que temos de guardar a nossa informação na blockchain tal qual o fazemos numa tradicional base de dados? O Regulamento Geral de Protecção de Dados (RGPD) tem sido considerado incompatível com a blockchain, mas eu não estou de acordo.

Eis porquê. Numa sociedade cada vez mais dependente das tecnologias de informação e comunicação, a segurança dos nossos dados torna-se mais importante e estratégica do que nunca. A segurança é, aliás, um tema cada vez mais complexo num mundo onde a sofisticação dos ciber-ataques não pára de crescer. Não é infrequente ver empresas carregadas de dados valiosos - os nossos - serem atacadas, fazendo-nos sentir vulneráveis.

Além disso, muitos são os serviços grátis de que usufruímos porque os nossos dados são usados por essas as empresas para rentabilizar o seu próprio negócio. A verdade é que os nossos dados fazem parte da pegada digital que nos revela, às vezes mais do que imaginamos, e até pode ser usada contra nós, como já aconteceu por alturas do Brexit. Entretanto apareceu o RGPD.

Com o RGPD, as páginas da web passaram a abrir com umas janelas muito incomodativas e cheias de letrinhas miudinhas a pedir o nosso consentimento relativamente aos nossos dados. Quantas pessoas se dão ao trabalho de ler e verificar o que a empresa pretende fazer ou não com eles? Quantas pessoas vão deixar de consultar aquelas páginas por causa disso? Na cultura do "li e aceito" passou a ser mais fácil olhar para o lado. E como garantir que as empresas cumprem a lei?

É aqui que a blockchain vem ajudar. A blockchain permite-nos guardar os nossos dados, sempre sob o nosso controlo, com uma segurança muito para além do que o RGPD exige. Os nossos dados ficarão assim totalmente resilientes a todos os riscos, e até a todos os ciber-ataques. Parece milagre? Eu sei que esta posição é polémica, pois a blockchain tem sido considerada incompatível com o RGPD devido ao carácter indelével como a informação lá é guardada.

É também verdade que actualmente a maioria das blockchains não está a cumprir as regras da protecção de dados, mas não tem de ser assim. Aprendi, há muitos anos, que em informática tudo se resolve com um nível suplementar de indirecção. Quem disse que temos de guardar a nossa informação na blockchain tal qual o fazemos numa tradicional base de dados? Da mesma maneira que acedemos à blockchain com tokens, também lá podemos guardar outros tokens em vez de informação aberta com o nosso nome, número de telefone etc.

Afinal é muito simples. Os tokens que lá se guardam vão ter regras e nós é que decidimos quais. Esses tokens vão representar o direito que outrem possa ter em utilizar informação que decidimos partilhar desta forma opaca. Querem enviar uma encomenda para a nossa morada? 

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