Muda-se a crise, nasce uma nova geração enrascada

“Inevitável é a tua tia.” Foi como se o cartaz anti-austeridade voltasse a estar sobre a nossa cabeça, dez anos depois, quando Paula Gil repete: “Ou se tomam medidas neste momento para o período pós-pandemia, ou é inevitável que as pessoas voltem a sair à rua.”

A precariedade não se fecha numa faixa etária, lembram os organizadores da manifestação que foi mais do que uma geração a reclamar pelo seu futuro e por mais direitos laborais. Mas os jovens continuam sobre-representados nos grupos mais vulneráveis a uma crise que não está a ter um efeito simétrico.

Entre 2019 e 2020, o emprego dos jovens caiu 18,4%, enquanto na população acima dos 45 anos aumentou quase 3%, mostram dados do Instituto Nacional de Estatística. “O declínio no emprego foi mais forte para os mais jovens, os trabalhadores com baixos níveis de educação e os empregados temporários”, aÆrmava-se num artigo publicado, em Janeiro, no Boletim Económico do Banco Central Europeu. O número de pessoas entre os 15 e os Há dez anos, “desempregados, quinhentos-euristas e outros mal remunerados” eram convocados para uma manifestação contra a precariedade, a 12 de Março.

Agora, enfrentam a segunda grande crise nas suas curtas e instáveis carreiras. Mas não estão sozinhos. Geração à Rasca, conheçam os pandemials Renata MonteiroPor novos empregos mais tarde, um outro adjectivo para deÆnir os jovens adultos nascidos entre 1980 e 1995 parece consolidar-se: arriscam-se a ser a nova “geração perdida”. “Somos a geração que está a levar com duas crises profundas, talvez das maiores do século, a acontecerem seguidas em dois momentos cruciais da nossa carreira proÆssional”, recapitula João Labrincha, antes de fazer uma pausa: “Se é que existe carreira para um precário a recibos verdes.” Entrar no mercado de trabalho num momento de crise, com taxas de desemprego mais elevadas, não “tem apenas um impacto passageiro”, alerta Susana Peralta, professora de Economia e colunista do PÚBLICO. 

Quase metade dos jovens entre os 18 e os 24 anos considera que o seu estado de saúde mental se deteriorou durante a pandemia, enquanto, entre os mais velhos (65 ou mais anos), 17% disseram sentir-se pior, segundo um inquérito feito pelo Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (Cesop) da Universidade Católica para o PÚBLICO e para a RTP. “As pessoas nunca levaram muito a sério a forma como me sentia, mas, depois de isto se intensificar, começaram a perceber melhor.

Não há ninguém à minha volta que esteja feliz”, observa Sara Marreiros, a recém-licenciada à procura de emprego com quem falávamos anteriormente. Com o aumento de sintomas e diagnósticos de depressão, ansiedade e stress, a produtividade, o abstencionismo, a falta de motivação ou a pouca disponibilidade para trabalhar em equipa podem dificultar ainda mais a procura de um primeiro emprego ou de uma formação. “A saúde mental é uma das dimensões das vidas das pessoas que têm mais impacto na capacidade de produzir no sentido lato, e no estrito também. Mesmo as que conseguem trabalhar, nunca se é igualmente inovador, criativo”, comenta Susana Peralta, que sublinha a urgência do país em ter jovens produtivos e com perspectivas de futuro (e de presente). Aos 21 anos, uma licenciatura é apenas um aspecto da vida que Abel pôs em suspenso. 

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